Results

Presidency of the Portuguese Republic

07/06/2026 | Press release | Distributed by Public on 07/06/2026 11:57

Intervenção na cerimónia de entrega do Prémio «Vencer o Adamastor»

Há algumas semanas estive na reunião anual da COTEC em Veneza. Nesse encontro com o Rei de Espanha, o Presidente da República Italiana e líderes empresariais e investigadores de três países europeus, falámos do futuro do trabalho na era da inteligência artificial. Falámos de regulação. De competitividade. De modelos de governação. De como garantir que a IA sirva as pessoas, e não o inverso.

Saí de Veneza com uma convicção. A conversa política sobre inteligência artificial precisa de ser alimentada pelo conhecimento científico. Precisa de investigadores que façam as perguntas certas. Não apenas as perguntas técnicas. As perguntas que têm consequências para a vida das pessoas.

Estou hoje aqui convosco no Porto para continuar essa conversa. Mais próximo. E mais concreto. Quando criaram este prémio, escolheram um nome que vem de Camões. Vencer o Adamastor. O gigante que encarna o obstáculo, o desconhecido, o medo do que está para lá do horizonte que já conhecemos. Um nome que diz tudo sobre o que o INESC quis ser desde que nasceu, em 1980.

O INESC entendeu que a ciência e a tecnologia são, na sua essência, uma forma de coragem. A coragem de ir mais longe. De arriscar. De questionar o que parece estabelecido. De atravessar o cabo que outros evitam. O Adamastor de hoje não é o mesmo de Os Lusíadas, de Camões. O Adamastor muda sempre de forma.

Não desaparece. Nunca desaparece, mas tem sempre um nome diferente. Hoje chama-se opacidade. Chama-se caixa negra. Chama-se algoritmo que decide sem explicar.

Vivemos num tempo em que sistemas de inteligência artificial tomam decisões que afetam diretamente a vida das pessoas. Bloqueiam pagamentos. Avaliam candidaturas. Fazem triagem de crédito. Sinalizam comportamentos. Fazem-no em escala, em tempo real, com uma eficiência que nenhum ser humano consegue igualar. E fazem-no, muitas vezes, sem que ninguém consiga explicar porquê.

Não estou a fazer um discurso contra a tecnologia. Estou a fazer um discurso sobre o que a democracia exige da tecnologia. E a democracia exige uma coisa muito simples, mas ao mesmo tempo muito difícil: que as decisões que afetam as pessoas possam ser compreendidas, contestadas e corrigidas. Decisões controladas pelos seres humanos.

Quando um algoritmo decide e ninguém explica o critério, não há recurso possível. Não há responsabilidade. E sem responsabilidade, não há democracia. É assim simples. E é assim grave.

Confesso que, quando comecei a debater mais este problema publicamente, fiquei com uma inquietação que importa partilhar convosco. Porque o risco maior não é a IA que decide mal. É a IA que decide mal e parece que decide bem. É a transparência que tranquiliza sem capacitar. A explicação que existe, mas que não serve.

Há uma diferença entre transparência aparente e transparência efetiva. A primeira dá-nos uma resposta. A segunda dá-nos uma resposta que nos permite decidir melhor, contestar com fundamento, exigir correção com argumentos. A primeira pode iludir. A segunda é a que liberta.

Esta distinção não é teórica. É democrática. O trabalho que hoje distinguimos é exatamente sobre isto.

Sérgio Jesus trabalha numa pergunta fundamental: quando um sistema de IA oferece uma explicação para a decisão que tomou, essa explicação é útil para o decisor? Ou é apenas uma forma de o sistema aparentar responsabilidade?

E vai mais longe. Pergunta também, quando um algoritmo erra, porque erra sempre, em algum caso, erra da mesma forma para toda a gente? Ou erra de formas diferentes para grupos diferentes, concentrando o ónus nos mesmos que já carregam mais?

Estas não são apenas perguntas que a ciência tem de fazer para produzir conhecimento. São perguntas de justiça, são perguntas que semeiam democracia.

E o facto de serem feitas por um investigador português, no Porto, em colaboração com as melhores universidades do mundo, publicadas nas revistas científicas mais exigentes da sua área, diz-nos algo sobre o país que somos e sobre o país que podemos ser.

Em Veneza disse que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses não conhece. Que essa invisibilidade não é apenas um problema de comunicação. É um problema democrático. Porque uma sociedade que não conhece as suas capacidades não consegue fazer escolhas informadas sobre o seu futuro. O trabalho de Sérgio Jesus é um desses casos.

O Prémio Vencer o Adamastor existe para corrigir essa invisibilidade. Para dizer em voz alta que há investigadores portugueses a trabalhar na fronteira das questões mais decisivas do nosso tempo. Que não precisamos de ir buscar fora o que temos dentro. E que a ciência portuguesa não é apenas capaz de competir com o mundo. É capaz de liderar as perguntas que o mundo ainda não sabe fazer.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

A pergunta que me ficou de Veneza continua sem resposta: a Europa conseguirá construir um modelo de inteligência artificial que seja simultaneamente competitivo e democrático? Que inove sem excluir? Que decida sem abdicar de responsabilidade? Não sei.

Mas sei que a resposta não virá apenas dos centros de decisão da União Europeia. Virá também daqui. De investigadores que fazem da ciência um instrumento de escrutínio, do poder tecnológico, das suas consequências, dos seus limites.

O Adamastor nunca desaparece. Muda de forma. E é por isso que precisamos sempre de quem tenha a coragem e o rigor de o enfrentar.

Parabéns ao INESC.
Parabéns, Sérgio Jesus.
Muito obrigado.

Presidency of the Portuguese Republic published this content on July 06, 2026, and is solely responsible for the information contained herein. Distributed via Public Technologies (PUBT), unedited and unaltered, on July 06, 2026 at 17:57 UTC. If you believe the information included in the content is inaccurate or outdated and requires editing or removal, please contact us at [email protected]