Presidency of the Portuguese Republic

08/23/2026 | Press release | Distributed by Public on 08/23/2026 05:31

Intervenção na XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira

Agradeço o convite que me foi dirigido para estar aqui presente, nesta mesma sala, por ocasião da abertura da Bienal de Cerveira. Infelizmente, por razões de última hora, não me foi possível estar presente.

Mas quero começar por assinalar que esta Bienal abre as portas à arte e, com ela, ao mundo. E abre as portas porque não podia haver expressão mais justa para descrever esta terra.

Porque Vila Nova de Cerveira nasceu há mais de 700 anos precisamente para isso. Para guardar uma porta. A porta de um país que se afirmava. O Rei D. Dinis outorgou foral a este lugar e ordenou a construção do castelo que ainda hoje domina a vila, virado para o rio e para a fronteira.

Hoje terei finalmente a oportunidade de visitar a Bienal, ou uma parte dela, que tem a fronteira como conceito, como ideia, como matéria de arte e de reflexão. Aqui na Câmara Municipal quero falar da fronteira como ela é vivida: para quem nasce, cresce, trabalha e envelhece neste território.

Esta é uma experiência que molda um povo de um modo muito particular. Quem vive na fronteira aprende cedo, desaprende cedo, que o "outro lado" não é uma ameaça, é uma vizinhança. Que a diferença de língua, de sotaque, de bandeira não impede a partilha do mesmo rio, das mesmas cheias, do mesmo trabalho na terra e na água.

Cerveira sempre soube ser fronteira sem se fechar. E esse é também um ensinamento para o país inteiro, num tempo em que o mundo volta a discutir muros e linhas divisórias.

Este concelho soube, ao longo dos séculos, transformar aquilo que poderia ser apenas um posto avançado de defesa numa comunidade viva, com a sua agricultura, com a sua relação com o rio Minho, com os seus artistas, com as suas gentes que emigraram e que regressam, com as suas freguesias que fazem o tecido humano deste território.

E soube, num gesto que só as pequenas comunidades com grande visão conseguem ter, transformar-se também em capital da arte contemporânea em Portugal. Um grupo de sonhadores decidiu que Vila Nova de Cerveira não seria apenas fronteira geográfica, mas fronteira do pensamento e da criação. E a Bienal é a prova de que essa aposta foi ganha.

Provavelmente, este é um dos lugares mais apropriados para falarmos do tema territórios sem fronteira. Que a Bienal de Cerveira elege como problema, como ponto de partida e ponto de chegada da sua 24.ª edição. Talvez o rio Minho seja esse mapa volátil e flutuante em que a palavra fronteira faz mais sentido em duas das suas direções. A fronteira que separa e a fronteira que une.

A fronteira que se atravessa para outro lugar e a fronteira que atravessa dois lugares, unindo e separando, aproximando e distinguindo. A fronteira é uma linha estreita entre dois territórios. E como bem intuiu a Bienal na sua programação para este ano, é também uma espécie de construção que o tempo interroga, dilui, estabiliza, desenha e reconstrói.

Uma das vantagens da existência da palavra fronteira é podermos discuti-la e problematizá-la, não apenas como realidade política e geográfica ou como acidente da história, mas também como uma negociação com o tempo e a sua passagem. Falamos abundantemente de fronteiras que separam dois mundos. Mas num século que faz do virtual o seu emblema e a sua obsessão, talvez isso não faça tanto sentido como há nove séculos, quando Portugal começou a formar-se e a desenhar as suas fronteiras ou como há um século, ou como há 40 anos, quando as fronteiras da Europa passaram a ser um desenho no papel, um risco no mapa, um rio atravessado por uma ponte.

São etapas. A fronteira de água que nos separa de A Guarda deixou de ser física e passou a ser mental. Com o tempo, deixou de ser mental e passou a ser uma recordação para os textos da história, para os romances e para os acordos políticos entre povos vizinhos.

Esta visão idílica, ou apenas cultural, é uma bênção para a humanidade que, ao longo dos últimos 70 anos, teve na Europa, sobretudo, fronteiras estáveis, assentes no desejo de prosperidade comum, partilha de identidades, diálogo entre memórias e experiências. A minha foi a derradeira geração a atravessar a Europa e a cruzar postos de controlo fronteiriço. Foi a derradeira geração que se servia do passaporte para passar de um país ao outro no espaço europeu.

As pessoas com menos de 30 anos não conhecem essa Europa cruzada por linha de fronteira, câmbio de moeda ou comunicações telefónicas caras e atribuladas. Essas fronteiras no papel deixaram de ser cancelas que separam dois países e passaram a ser pórticos de comunicação e passagem entre realidades mentais e passados diferentes, mas não totalmente divergentes.

É por isso que a construção europeia é um edifício precioso para a humanidade da viragem do século. Habituados a elas, julgando que eram um dado adquirido e apenas um pequeno degrau no aperfeiçoamento da humanidade, ignorámos então que os conflitos deste primeiro quartel do novo século iriam obrigar-nos a rediscutir fronteiras, a mencioná-las e, mais do que isso, a acentuá-las.

As guerras atuais atravessam fronteiras e erigem fronteiras. Tal como noutras épocas da história humana, tomam as fronteiras e transformam-nas em muralhas, em fossos, em abismos que julgávamos ter sido eliminados. Pior do que isso, esses conflitos não ocorrem apenas em geografias distantes, incendiando a ordem das coisas humanas, mas ardem nos limites da própria Europa, como sabemos, pela Guerra da Ucrânia. Onde pensávamos que os fantasmas da história tinham sido arrumados nos arquivos, tinham sido catalogados como recordações do passado, vemo-los regressarem para estabelecerem uma ordem que ainda desconhecemos e para a qual ainda não sabemos se estamos verdadeiramente preparados.

Quando Jaime Isidoro - e um grupo de sonhadores, que estas coisas nascem geralmente através dos sonhos - pensou na Bienal de Cerveira, que resiste até hoje e que festejamos hoje, a Europa também sonhava com um mapa sem fronteiras, ou onde as fronteiras se atravessam sem cessar até desaparecerem, como se fossem gradualmente apagadas pelo uso. 48 anos depois, as fronteiras voltam a ser discutidas, apesar da internet, da livre circulação, da partilha de informação, da comunicação instantânea, das economias globais e das lições deixadas por dois conflitos mundiais e por uma dezena de guerras em geografias longe de Vila Nova de Cerveira.

A mensagem que a Bienal traz este ano assenta na definição da fronteira como uma construção mental e como ela pode ser interpretada, e é interpretada, na arte de hoje e nas suas formas de existência que ultrapassam as contingências da geopolítica, das guerras da economia e das forças militares na terra e no ar.

Não sendo o meu papel falar-vos da contribuição das exposições, debates e performances que decorrerão nesta Bienal, até porque soaria a solenidade artificial, devo, como Presidente da República, recordar-vos que o seu tema está cheio de problemas. Como esperavam, creio eu, os seus próprios autores. Em particular para mim, que sempre preferi os caminhos às fronteiras.

Esta não é uma mensagem pessimista, apesar de frequentemente confundirmos pessimismo com a simples abordagem dos problemas do presente e do futuro. Talvez o papel da arte seja também o de identificar as linguagens do futuro, não porque o mundo da decisão política tenha a obrigação de seguir os seus passos, mas porque tem a obrigação de identificar os sinais que a arte transporta nos seus caminhos e que podem alertar-nos para os problemas do futuro.

Estou certo de que isso passará também por esta Bienal, que agora entra na sua 24.ª edição. Ela é a prova de que é possível, fora dos circuitos dominantes do território, manter uma instituição tão importante e memorável. A Bienal é uma razão para termos confiança, que é uma das palavras que temos de reinventar na nossa linguagem. Confiança.

A Bienal, como outras obras que permanecem na nossa história, fez-se com trabalho, insistência, também com paixão, dedicação e criatividade. Permitam-me dizer que não se trata de uma construção mental, como as fronteiras podem ser. Trata-se de uma construção deixada por mulheres e homens que acreditaram que a arte pode deixar uma palavra, uma poeira, uma imagem, uma respiração de beleza e de interrogação em Vila Nova de Cerveira, que já é por si só um espelho de beleza, junto de um dos mais belos rios que temos de proteger e continuar a amar.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Quero deixar uma palavra de reconhecimento aos autarcas que, ao longo de décadas, permitiram que este concelho crescesse com identidade própria, sem nunca se deixar diminuir pela sua dimensão. Ser pequeno em população não é ser pequeno em ambição, e Cerveira é disso exemplo.

Sei das dificuldades comuns a tantos territórios do interior e da raia. O despovoamento, o envelhecimento, a distância aos grandes centros de decisão. São desafios que exigem do Estado central mais atenção, mais investimento e mais confiança nas autarquias, que conhecem, melhor do que ninguém, as suas gentes e as suas necessidades.

Um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios. E Portugal precisa de Cerveiras, de comunidades que resistam, que se reinventem, que atraiam quem vem de fora e não deixem ir quem quer ficar.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Vila Nova de Cerveira tem uma vantagem que poucos concelhos portugueses possuem: sabe exatamente o que é. Sabe-se castelo e sabe-se arte. Sabe-se raia e sabe-se ponte. E é essa dupla identidade, entre a pedra do castelo de D. Dinis e a liberdade das telas e esculturas da Bienal, que faz deste concelho um lugar singular no mapa de Portugal.

Que este concelho continue a merecer essa dupla vocação, guardiã da fronteira que une, e não da fronteira que separa.

Aos cerveirenses, o meu apreço pela forma hospitaleira como sempre acolhem quem os visita. E, nesta Sessão Solene, o meu agradecimento sincero ao meu amigo e Senhor Presidente da Câmara e a todos os autarcas que aqui estão presentes.

Vila Nova de Cerveira honra a sua História quando continua, todos os dias, a abrir as suas portas ao mundo.

Muito obrigado!

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