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03/16/2026 | Press release | Archived content

“Em vez de competir com a mídia local, a China a utiliza como canal”: a estratégia midiática de Pequim na América Latina

Ao longo da última década, Pequim expandiu sua influência sobre as narrativas a respeito da China na América Latina por meio de acordos de compartilhamento de conteúdo com veículos locais, uma presença crescente nas redes sociais, a adaptação de sua comunicação aos contextos nacionais e outras táticas controversas. O jornalista brasileiro Igor Patrick, especialista em geopolítica asiática, conversou com a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) sobre as técnicas por trás da estratégia midiática da China e os desafios que ela cria para a transparência e a independência do jornalismo na região.

Para compreender melhor o impacto no ecossistema informativo latino-americano, a RSF entrevistou Igor Patrick, que é formado em jornalismo pela PUC-Minas e possui mestrado em Estudos da China pela Yenching Academy da Universidade de Pequim e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua. Ele trabalhou para veículos como CBN, Estadãoe Folha de S.Paulo, além de ter colaborado com O Globoem Pequim. Atualmente, é correspondente para a América Latina do South China Morning Poste autor do livro "Hearts & Minds, Votes & Contracts: China's State Media in Latin America."

Nos últimos dez anos, como evoluiu a presença da mídia estatal chinesa na América Latina?

A ambição da China de se comunicar com o resto do mundo sem depender da imprensa estrangeira não é nova. Há registros disso desde antes da revolução comunista, quando as autoridades chinesas já reclamavam da forma como o país era retratado pela mídia estrangeira.

O que mudou no final dos anos 2000 - especialmente após as Olimpíadas de 2008 e, posteriormente, com a chegada de Xi Jinping ao poder em 2013 - foi a escala e a importância estratégica dessa comunicação externa. A China percebeu que, se queria ser vista como uma grande potência global, precisava investir ativamente na forma como era retratada no exterior.

Desde então, bilhões foram investidos no fortalecimento da mídia estatal voltada ao público internacional. Um marco importante foi a transformação da CCTV em CGTNem 2016, juntamente com a expansão de escritórios no exterior e o lançamento de canais direcionados a diferentes regiões.

Quais canais a China utiliza para circular seu conteúdo na América Latina?

Inicialmente, a China tentou competir diretamente por meio de seus próprios canais internacionais, como a CGTN em espanhol. Porém, o mercado de mídia latino-americano é altamente concentrado e difícil de penetrar.

Como resultado, a estratégia evoluiu. Em vez de depender apenas de seus próprios veículos, a China passou a priorizar acordos de compartilhamento de conteúdo com organizações de mídia já estabelecidas na região. Mais recentemente, também investiu em redes sociais e influenciadores digitais, produzindo conteúdo cada vez mais adaptado a públicos nacionais específicos.

Na sua avaliação, qual é o principal objetivo da estratégia de comunicação da China na América Latina hoje?

O objetivo principal é remodelar a percepção internacional sobre a China. As autoridades chinesas querem que o país seja visto menos como uma potência autoritária ou agressiva e mais como um ator responsável, focado em cooperação e desenvolvimento. Isso aparece claramente no discurso oficial sobre "cooperação ganha-ganha" e na ideia de uma "comunidade de futuro compartilhado".

Mas também existe uma dimensão política. Esses veículos ajudam a contrapor narrativas ocidentais e responder a críticas vindas dos Estados Unidos e de outros países. Assim, a estratégia tanto melhora a imagem internacional da China quanto promove narrativas alinhadas aos interesses estratégicos do Estado chinês.

Sua pesquisa mostra que acordos de conteúdo com veículos locais são um dos principais pontos de partida para a circulação de propaganda. Como esses acordos funcionam na prática?

Esses acordos variam bastante. Em muitos casos, a mídia estatal chinesa fornece gratuitamente textos, fotos, vídeos ou programas de televisão para veículos locais. Em teoria, isso é apresentado como uma troca de conteúdo, mas na prática tende a beneficiar muito mais o lado chinês. Também existem advertoriais (diferentes de acordos de branded content), nos quais entidades chinesas pagam por conteúdos que se parecem com reportagens jornalísticas, mas que na verdade são patrocinados.

Como a China não possui uma imprensa livre, o conteúdo produzido por sua mídia estatal costuma ser visto com desconfiança por veículos comerciais da região. Ainda assim, a estratégia funciona porque se apoia em veículos que já possuem audiência e credibilidade. Em vez de competir diretamente com grandes marcas de mídia locais, a China as utiliza como canais por meio dos quais seu conteúdo pode circular.

Por que a China simplesmente não compra veículos de mídia na região?

Um fator importante é a regulação. Na maioria dos países latino-americanos existem limites rigorosos para a propriedade estrangeira de meios de comunicação. Em geral, uma organização de mídia não pode ser totalmente controlada por uma entidade estrangeira. Isso dificulta aquisições diretas. Por isso, a estratégia chinesa se concentra muito mais em acordos de conteúdo, cooperação e parcerias comerciais do que na compra direta de veículos de mídia.

Como devemos diferenciar mídia pública de mídia estatal chinesa?

É importante não confundir mídia pública com mídia estatal, embora os termos muitas vezes sejam usados como sinônimos. Emissoras públicas como a BBC ou a Deutsche Welle recebem financiamento público, mas mantêm independência editorial e publicam regularmente reportagens críticas aos seus próprios governos.

Já veículos chineses como CGTN ou Xinhua operam como mídia estatal. Seu papel é promover narrativas alinhadas às prioridades definidas pelo Partido Comunista Chinês. Essa diferença institucional molda tanto a forma como seu conteúdo é produzido quanto como ele é utilizado nas estratégias de comunicação internacional.

Em que medida esses acordos criam incentivos financeiros ou dependência econômica para alguns veículos latino-americanos?

Esse risco existe, especialmente em um momento em que o setor de mídia enfrenta dificuldades estruturais. O jornalismo tradicional dependia fortemente da publicidade, e grande parte dessa receita migrou para plataformas digitais. Nesse contexto, conteúdo gratuito, compra de publicidade ou outros incentivos financeiros podem se tornar atraentes para veículos sob pressão econômica.

No meu livro, por exemplo, menciono um caso no México em que a direção de um jornal pediu a retirada de uma matéria crítica sobre questões chinesas porque o veículo tinha um acordo comercial com entidades chinesas que compravam espaço publicitário. Isso não significa que todos os acordos levem à interferência editorial. Muitos jornalistas resistem a esse tipo de pressão. Mas o risco existe, especialmente em veículos menores ou financeiramente frágeis.

Quando conteúdos ligados ao Estado chinês aparecem sem identificação clara de origem, quais riscos isso representa?

O principal risco é que o público consuma propaganda como se fosse jornalismo independente. Em muitos casos, conteúdos produzidos por agências estatais chinesas são reproduzidos com pouca adaptação e aparecem como se tivessem sido produzidos pelo próprio veículo local. Mesmo quando há alguma forma de identificação, ela nem sempre é clara para os leitores. Isso prejudica a transparência e o direito do público à informação. As pessoas devem ser capazes de entender de onde vem uma informação para poder avaliá-la criticamente.

Além da mídia tradicional, a China tem investido em influenciadores e redes sociais. Como essa estratégia funciona?

Duas tendências são particularmente visíveis. Uma é a parceria entre jornalistas ligados à mídia estatal chinesa e influenciadores locais. A outra é a criação de contas em redes sociais voltadas a públicos específicos. No Brasil, por exemplo, há o caso de "Luana em Pequim", que produz conteúdo em português direcionado ao público brasileiro. Existem iniciativas semelhantes voltadas ao Peru, ao México e a outros países.

Normalmente, esse conteúdo começa com temas culturais - gastronomia, estilo de vida ou experiências do cotidiano - e apenas ocasionalmente aborda questões geopolíticas. Essa abordagem torna a mensagem mais próxima do público e menos associada à propaganda tradicional.

Quais narrativas aparecem com mais frequência nesse conteúdo?

A mensagem evoluiu ao longo do tempo. Inicialmente, houve um forte esforço para desmontar estereótipos negativos sobre a China. Depois, o foco passou a destacar os benefícios concretos da presença chinesa na região - investimentos em infraestrutura, comércio e cooperação tecnológica. Mais recentemente, também houve um esforço maior para rebater narrativas dos Estados Unidos. Um tema recorrente, por exemplo, é Taiwan, que é consistentemente apresentado como uma parte indivisível da China. Ao mesmo tempo, a China frequentemente se apresenta como um parceiro de desenvolvimento que oferece uma alternativa aos Estados Unidos.

Nos casos que você analisou, é possível identificar impactos concretos no espaço informativo?

Alguns estudos sugerem que sim. Um exemplo analisou a emissora brasileira Band, comparando sua cobertura antes e depois de acordos assinados com a mídia chinesa. Os pesquisadores observaram uma redução significativa na cobertura crítica sobre a China após esses acordos. No entanto, os efeitos não são uniformes. Em veículos maiores, como Folhaou O Globo, não há evidências claras de que acordos comerciais com entidades chinesas tenham alterado significativamente a cobertura editorial. Já em veículos menores ou financeiramente mais frágeis, o risco parece ser maior.

Quais salvaguardas os veículos de mídia deveriam adotar ao lidar com esse tipo de parceria?

Apontar essas estratégias não significa defender a censura da mídia chinesa. A questão central é a transparência. Sempre que um conteúdo for produzido ou financiado por um ator estatal estrangeiro, isso deve ser claramente informado ao público. O mesmo vale para viagens patrocinadas ou programas de intercâmbio de jornalistas. Outra salvaguarda é manter uma separação rigorosa entre conteúdo editorial e conteúdo patrocinado. Mas talvez o passo mais importante seja investir em reportagem independente sobre a China.

A América Latina ainda depende muito de agências americanas, europeias e japonesas para compreender os acontecimentos no país. Desenvolver uma agenda regional de cobertura sobre a China - baseada nas próprias prioridades da América Latina - é essencial para garantir pluralismo midiático e informação independente.

E como essa estratégia se compara com a da Rússia?

A estratégia russa tende a ser mais agressiva e confrontacional. A mídia russa frequentemente recorre a conteúdos polarizadores e provocativos. A estratégia chinesa é mais silenciosa e mais focada em defender seus próprios interesses do que em desestabilizar o debate público. Paradoxalmente, justamente por ser menos confrontacional, a influência chinesa às vezes recebe menos atenção.

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Publicado em16.03.2026
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