Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

05/20/2026 | Press release | Distributed by Public on 05/20/2026 08:48

Safra de inverno desafia produtores no Sul

A confirmação do El Niño para o segundo semestre de 2026 coloca os produtores em estado de alerta na Região Sul. A tendência de aumento no volume de chuvas exige conhecimento técnico para minimizar as perdas nas lavouras. Veja as orientações da Embrapa Trigo para enfrentar os riscos climáticos nesta safra.

"É preciso realizar o investimento em insumos baseado no potencial de rendimento de grãos permitido pelo ambiente, considerando que a oferta ambiental em anos de El Niño é menor do que em anos de La Niña". Esta é a recomendação do pesquisador João Leonardo Pires. Ele lembra que, em 2023, ano de El Niño, muitos produtores ficaram frustrados com a safra de inverno: "Ainda sob efeito dos resultados da safra histórica de 2022, quando o clima foi favorável e a valorização do trigo no mercado internacional esteve em alta, muitos produtores investiram em 2023 em busca de novos recordes de produtividade. Um custo elevado para um ano de El Niño, quando o potencial da lavoura é reduzido em função do ambiente limitante, aumento de gastos para controle de doenças fúngicas e risco de chuva na pré-colheita. Uma safra de risco exige investimento moderado, com o uso de conhecimento agronômico aplicado à lavoura para reduzir perdas".

Figura: Rendimento de grãos de trigo no RS e no Sul do Brasil em anos de La Niña, Neutros e El Niño.

Fonte: adaptado de Conab (2026)

Cenário de El Niño

Os principais institutos internacionais que lidam com previsão climática são unânimes em alertar sobre a volta do fenômeno El Niño a partir do segundo semestre de 2026, embora ainda existam dúvidas sobre a intensidade do evento. No Brasil, o El Niño afeta, principalmente, o regime de chuvas, aumentando o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece o aumento das chuvas no Sul.

Conforme o pesquisador Gilberto Cunha, durante o El Niño as temperaturas da superfície das águas do Oceano Pacífico, na faixa equatorial, ficam, no mínimo, 0,5 °C acima da média por um longo período. "A agricultura é um dos setores mais sensíveis aos efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño, especialmente no sul do Brasil, onde as temperaturas ficam mais elevadas no inverno com aumento na quantidade de chuvas, principalmente na primavera", explica Cunha, lembrando que o fenômeno não possui um período de duração definido, podendo persistir por mais de um ano.

Na Região Sul, nos anos de El Niño, os cultivos de inverno podem enfrentar algumas dificuldades, enquanto as culturas de verão tendem a ser favorecidas. "O produtor gaúcho está calejado pelas estiagens enfrentadas no verão, por isso a previsão de El Niño pode trazer certo alento para a próxima safra de soja e de milho. Contudo, para garantir esse benefício, é necessário que a água das chuvas infiltre e seja armazenada no solo, não escorrendo para fora da lavoura. Por isso é fundamental evitar o pousio de inverno, com solo descoberto que leva a processos erosivos, além de perdas de nutrientes e proliferação de plantas daninhas que dificultam a plantabilidade e o manejo das culturas de verão", alerta Gilberto Cunha.

Como reduzir as perdas

O pesquisador João Leonardo Pires lembra que o cenário de El Niño pode ser enfrentado com o uso eficiente de informações e tecnologias, que podem minimizar as perdas na safra de inverno. "Existe uma série de estratégias desde a pré-semeadura até a pós-colheita que podem ajudar o produtor a equilibrar as contas. É um ano desafiador, onde o produtor precisa minimizar os riscos para maximizar a rentabilidade", destaca Pires.

Entre as estratégias apontadas pela Embrapa Trigo estão:

escolha da cultivar: as cultivares podem apresentar variações de desempenho em anos de El Niño e La Niña. A diferença entre a escolha da melhor ou da pior cultivar em cada ano pode superar os 800 kg/ha (El Niño) e chegar, em determinados anos, a 1.389 kg/ha (La Niña). Além da eficiência produtiva, também deve ser considerada a resistência da cultivar às principais doenças e à germinação na espiga;

rotação de culturas: semear trigo em áreas que não receberam trigo, triticale, cevada ou centeio no inverno passado, evitando plantas hospedeiras de doenças;

utilizar cultivares de ciclos diferentes e fazer escalonamento de semeadura para evitar que momentos críticos da cultura exponham toda a lavoura ao risco de perdas;

evitar semeadura em solo com excesso de umidade, que pode aumentar ocorrência de mosaico do trigo;

monitoramento: acompanhar as previsões meteorológicas (especialmente de curto prazo), para orientar o manejo da lavoura (semeadura, aplicação de insumos e defensivos, colheita);

seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) que possibilita, também, a contratação de seguro agrícola;

fracionar a dose de nitrogênio em cobertura para reduzir perdas por lixiviação;

fazer análise de solo para avaliar possibilidade de reduzir adubação, especialmente fósforo e potássio que podem estar estocados no solo;

manejo de pragas e doenças com base no monitoramento da lavoura para aplicações mais eficazes no momento certo e evitar o desperdício de defensivos;

colheita antecipada: fazer a colheita assim que os grãos atingirem a maturação, avaliando necessidade de dessecação pré-colheita;

monitorar o teor de micotoxinas nos grãos colhidos, utilizando métodos físicos e químicos.

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