01/08/2026 | Press release | Archived content
Em um momento crucial para que o mundo compreenda o que está acontecendo na Venezuela e as consequências da intervenção ilegal dos Estados Unidos, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) insta as autoridades a permitir a entrada de jornalistas estrangeiros no país e a deixar de restringir o trabalho dos meios de comunicação locais.
Após anos de repressão e de rígido controle da informação sob o governo de Nicolás Maduro, as condições para o jornalismo na Venezuela se deterioraram ainda mais depois da ação militar ilegal dos Estados Unidos, em 3 de janeiro, e da consequente instabilidade institucional. Os jornalistas enfrentam agora riscos maiores e imprevisíveis em um ambiente cada vez mais fragmentado, no qual prevalece a arbitrariedade. A intimidação, as ameaças diretas, a revista de celulares e a remoção forçada de conteúdos jornalísticos - práticas que se generalizaram após as eleições de 2024- são agora agravadas por novos perigos. Essas ameaças já não provêm de uma única autoridade estatal identificável, mas de múltiplos atores, o que aumenta significativamente a insegurança para os profissionais da mídia.
Segundo a RSF, cerca de 200 jornalistas estrangeiros encontram-se atualmente retidos em Cúcuta, na Colômbia, à espera de autorização para entrar na Venezuela. De acordo com jornalistas colombianos que vivem em Cúcuta e falaram com a RSF - e que preferem permanecer no anonimato por razões de segurança -, mesmo aqueles que possuem permissões de trabalho válidas podem não conseguir atravessar a fronteira, já que o acesso depende em grande medida da discricionariedade de soldados individuais. Muitos dos que conseguem entrar no país acabam sendo posteriormente deportados.
Ao mesmo tempo, o governo venezuelano praticamente não fornece informações oficiais, enquanto os meios de comunicação independentes seguem gravemente enfraquecidos pela pressão política, pelas dificuldades econômicas e pelo exílio. Isso criou um profundo vazio informativo. As redes sociais estão cada vez mais inundadas de desinformação e conteúdos manipulados, grande parte deles gerados por meio de inteligência artificial, incluindo vídeos fabricados de venezuelanos celebrando o ataque dos Estados Unidos e deepfakesque mostram soldados norte-americanos ao lado de Maduro.
"Hoje existe uma enorme opacidade em torno do que está acontecendo na Venezuela. Neste momento crucial, o governo venezuelano continua restringindo a atividade da imprensa e impedindo que jornalistas estrangeiros informem. Não há sequer informações sobre as dezenas de pessoas que, segundo relatos, morreram durante o ataque de Trump. Sem acesso à informação e sem liberdade de imprensa, criam-se as condições ideais para a guerra informativa. Neste momento-chave para que o mundo compreenda o que está acontecendo na Venezuela e as consequências da intervenção dos Estados Unidos, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) insta as autoridades a permitir a entrada de jornalistas estrangeiros no país e a deixar de restringir o trabalho dos meios de comunicação nacionais.
Se as intervenções tendem a multiplicar os riscos para a imprensa, frequentemente presa no fogo cruzado, não há sinais de diminuição da repressão governamental. Em 5 de janeiro, forças venezuelanas detiveram temporariamente 14 jornalistas durante a posse da nova presidenta, Delcy Rodríguez, na Assembleia Nacional, em Caracas, segundo o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa da Venezuela. Desde então, outros quatro jornalistas foram detidos na fronteira: dois da Espanha, um do México e um da Colômbia. Embora todos tenham sido libertados poucas horas depois, pelo menos seis jornalistas permanecem presos na Venezuela por suas atividades profissionais.
Seis jornalistas detidos há alguns meses
São eles: Luis López, preso desde junho de 2024; Leandro Palmar e Belices Salvador Cubillán, detidos em janeiro de 2025; Nakary Mena Ramos e Gianni González, detidos em abril de 2025; e Rory Branker, preso desde fevereiro de 2025 e transferido em 8 de dezembro de seu local de detenção para um paradeiro desconhecido.
Nicolás Maduro é considerado um predador da liberdade de imprensa, e a Venezuela ocupa a 160ª posição entre 180 países no Ranking da Liberdade de Imprensa da RSF de 2025. A RSF acompanha de perto a situação dentro do país e mantém presença na fronteira colombiana, em contato direto com jornalistas estrangeiros.