Federal Government of Brazil

03/27/2026 | Press release | Distributed by Public on 03/28/2026 06:32

Comissão de Anistia reconhece Marçal de Souza Tupã’i como anistiado político brasileiro

Com o objetivo de reafirmar o compromisso do Estado brasileiro com a memória, a verdade, a reparação histórica e a não repetição, a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) apreciou, entre os dias 25 e 27 de março, em Brasília (DF), 146 pedidos de reconhecimento de anistia política relacionados a violações cometidas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Entre os processos analisados, destaca-se o requerimento formulado pelo procurador da República, Marco Antônio, em nome de Marçal de Souza Tupã-Y, liderança indígena Guarani Ñandeva, servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e técnico de enfermagem.

Pedido de desculpas

(Foto: Clarice Castro/MDHC)

Após a declaração dos votos dos conselheiros que acompanharam ao parecer favorável do relator, o colegiado, por unanimidade, concedeu título de anistiado político brasileiro a Marçal de Souza Tupã-Y.

Em seu discurso, a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, apresentou o pedido de desculpas do Estado brasileiro à família e às lideranças indígenas presentes.

"O direito à memória, à verdade e à justiça não é uma abstração. É uma obrigação concreta do Estado brasileiro. Um Estado que, por séculos, foi agente de violações, silenciamentos e violência. Este país foi fundado sob violência, mas também sob resistência. A resistência indígena não é um capítulo secundário da nossa história. Ela é central, estruturante e permanente", afirmou.

"O caso de Marçal de Souza, líder Guarani Ñandeva, é um símbolo da violência brutal que tentou calar vozes indígenas, mas também um símbolo de resistência que não se deixou apagar. Hoje, ao avançarmos na responsabilização do Estado brasileiro, afirmando - Brasil falhou", ressaltou.

Compromisso com a não repetição

Ao encerrar seu pronunciamento, Macaé Evaristo reforçou que a reparação histórica deve estar associada à construção de políticas públicas capazes de evitar a repetição das violações.

"A não repetição não é uma promessa vazia. É um compromisso do Estado democrático com tudo aquilo que ele não pode voltar a ser. Não aceitaremos mais o apagamento e o silenciamento. Não há Brasil sem os povos indígenas. Lutamos e continuaremos lutando pela memória, pela verdade, pela justiça e pela reparação", declarou.

Reconhecimento histórico

Durante a 1ª Sessão de Turma, nesta sexta-feira (27), a presidente da Comissão de Anistia, Ana Maria Oliveira, destacou o compromisso dos conselheiros, equipes técnicas e representantes das vítimas com o trabalho de reconhecimento das violações cometidas no período autoritário.

"Quero agradecer profundamente o empenho e a dedicação de cada um de vocês que nos acompanham nessa missão. Este é um trabalho coletivo em defesa da reparação histórica e que exige compromisso com a memória, a verdade e a justiça. Trabalhar com uma bancada desse calibre nos anima a seguir lutando pela anistia e pela justiça de transição", ressaltou.

Um dos momentos marcantes da sessão foi a reza Guarani conduzida por familiares de Marçal e lideranças indígenas, antes da leitura do relatório proferida pelo conselheiro relator, Adriano de Bortoli, acompanhada por representantes do Ministério Público Federal e autoridades.

Caso emblemático: Marçal de Souza Tupã-Y

Marçal de Souza Tupã-Y destacou-se pela militância em defesa dos direitos dos povos indígenas, pela denúncia de violações contra comunidades e pela luta pela demarcação de terras tradicionais.

Em 1983, ele foi assassinado por fazendeiros contrários à luta pela demarcação de terras. Sua trajetória simboliza a resistência indígena no Brasil, tornando-se referência na luta por direitos e justiça.

Sua atuação ganhou destaque nacional e internacional ao incentivar a organização e união dos povos indígenas, participando de assembleias e sendo uma das vozes na criação da União das Nações Indígenas. Em 1980, seu discurso ao Papa João Paulo II marcou a denúncia histórica de que o Brasil não foi "descoberto", mas invadido, reforçando sua postura combativa.

Causa justa

Durante a sessão, a filha de Marçal, Edna Silva de Souza, fez um relato marcado pela emoção ao lembrar a trajetória do pai e a luta dos povos indígenas.

"Eu me sinto emocionada porque nunca pensei que um dia estaria diante de autoridades para falar sobre a história do meu pai. Meu pai lutava não apenas pelo povo indígena, mas por todos aqueles que são alienados de sua cidadania e de seu pertencimento a este país", afirmou.

Edna também recordou que o líder indígena tinha consciência dos riscos que enfrentava. "Ele dizia: 'Sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre'. E ele morreu pelo seu povo", enfatizou. "Muitos de nós indígenas ainda vão escrever a história do nosso povo com sangue. Mas um dia faremos o 'V' da vitória. E esse primeiro passo está acontecendo aqui e agora", concluiu.

Nas sessões de quarta (25) e quinta-feira (26), foram analisados outros processos relacionados à repressão política e aos impactos da ditadura sobre trabalhadores, militantes políticos e familiares de perseguidos que marcaram a história do Brasil durante o regime militar.

Federal Government of Brazil published this content on March 27, 2026, and is solely responsible for the information contained herein. Distributed via Public Technologies (PUBT), unedited and unaltered, on March 28, 2026 at 12:32 UTC. If you believe the information included in the content is inaccurate or outdated and requires editing or removal, please contact us at [email protected]