09/25/2026 | Press release | Distributed by Public on 09/25/2026 10:18
Excelente, é como eu caracterizo o que acabamos de ouvir.
Portanto, quero felicitar muito vivamente a doutora Maria João, a doutora Camile, a doutora Margarida e o doutor Álvaro Beleza, e dizer-vos: excelente, porque, em tão pouco tempo, condensar várias informações e várias mensagens sobre um tema tão desafiante como aquele que aqui foi lançado é extraordinário.
Doutora Maria João Valente Rosa disse, no início, uma coisa que para mim é muito importante, que se aplica à saúde e também se aplica, neste caso concreto, à longevidade, a viver com qualidade o resto das nossas vidas e a organizar a nossa forma social, económica, cultural, a todos os níveis, com essa dimensão, que é: os diagnósticos já estão feitos. O que é que nós precisamos de fazer? De agir sobre esses diagnósticos.
Porque só há duas opções - eu sei que o slide não dizia isso, mas vou-me socorrer de um outro slide -, que é reagir ou agir. Então, nós podemos continuar a reagir, geralmente indo buscar soluções que são as soluções para este atual, perdoem-me a expressão, modelo ou modelos de organização económica e de organização social. O outro é termos a capacidade de sairmos fora da caixa, de olhar de longe e dizer como é que nós gostaríamos que fosse a nossa sociedade no futuro.
Como é que gostaríamos que fosse o nosso país? Como é que gostaríamos que fosse a nossa Europa? Como é que gostaríamos de viver nesse espaço?
E esse é o grande desafio que nós temos pela frente. Sairmos dos nossos casulos, sairmos dos nossos condomínios, sairmos das nossas visões sectoriais, querer naturalmente o melhor para todos nós, mas ter esta capacidade de perceber que, se não agirmos a tempo, vamos viver no mundo, não o que nós queremos, ou no país que nós queremos, mas no mundo que nos vai surgir em função de outros movimentos.
E, por isso, eu pedi ao professor Adalberto para não vir fazer o encerramento desta sessão, mas para ouvir estes especialistas, estas especialistas neste caso, para vir escutar, para vir ouvir, porque, de facto, o segundo ano do meu mandato será sobre este signo, o signo da demografia, com as implicações que isso tem no crescimento da nossa economia, na criação de riqueza, na produtividade e na organização da nossa forma de vida.
Eu não me resigno a que o nosso país, e em particular os portugueses, não possam ser mais felizes, mas não é com as soluções do passado. O mundo, tal como o conhecemos no passado, está vertiginosamente a desaparecer e está a surgir um outro mundo.
E a questão, volto a centrar e a deixar esta mensagem, é simples: ou fazemos por isso, ou então esperamos que as coisas nos aconteçam. Passaremos a vida a queixar-nos, as lamechices do costume, ou então perceber para nós próprios que somos capazes, de uma forma integrada, de uma forma unida, com as diferentes perspetivas e ideologias que temos sobre a vida, mas perceber que há um chão comum que nós precisamos de tratar.
E, por isso, eu quero felicitar muito, não só este painel, mas verdadeiramente o facto da organização ter inserido este painel neste encontro sobre saúde.
Quero começar por cumprimentar a organização do Cascais International Health Forum e agradecer o convite para estar presente nesta cerimónia.
Cumprimento todos os que, ao longo destes dois dias, aqui trouxeram conhecimento, experiência e vontade de melhorar a qualidade de vida dos portugueses.
Eventos como este são mais do que encontros de especialistas. São espaços de reflexão insubstituíveis, contrariando a tendência de um debate público tantas vezes reduzido ao ruído, à pressa e à simplificação.
O diálogo que aqui teve lugar, reunindo, entre outros, cientistas, profissionais, e dirigentes de várias empresas e instituições, permitiu discutir, com rigor e serenidade uma área determinante para o nosso futuro. Só por isso, é um ato de cidadania valioso e exemplo de como se prepara um país para os desafios que tem de enfrentar.
O tema escolhido para esta edição, "Viver Mais, Viver Melhor", resume, em quatro palavras, uma das maiores conquistas e um dos maiores desafios do nosso tempo.
Comecemos pela conquista. A esperança média de vida em Portugal é hoje de 81 anos. No início da década de sessenta, quando nasci, era de 64. São mais 17 anos! O que uma geração ganhou e o que representa na relação com os filhos, netos, e com projetos que antes não cabiam numa vida!
Outra conquista: a mortalidade infantil, que no final dos anos setenta ainda se contava em dezenas por cada mil nascimentos, está hoje entre as mais baixas do mundo. Estes números são o resultado de escolhas coletivas e muito se deve, repito, e muito se deve, ao Serviço Nacional de Saúde.
Celebrámos, no passado dia 15 de setembro, os 47 anos da criação do Serviço Nacional de Saúde. Uma data que representa um marco na construção da nossa democracia, na medida em que o SNS nasceu de um princípio profundamente democrático - o de que a saúde é um direito de todos e não um privilégio de alguns.
Reitero o que já várias vezes afirmei: Garantir cuidados de saúde a cada cidadão, independentemente dos seus recursos, é concretizar na vida quotidiana os valores da igualdade, da dignidade e da solidariedade que a democracia consagra.
A democracia não se mede apenas pelo direito de votar: mede-se também pela capacidade de transformar liberdade e igualdade em condições concretas de vida para as pessoas.
É por isso que digo, sem hesitação, que o Serviço Nacional de Saúde é uma das maiores obras da nossa democracia. É um pacto de confiança entre o Estado e os cidadãos. É a garantia de que, nos momentos de maior fragilidade, no nascimento, na doença, na velhice, ninguém fica sozinho.
Mas esta é uma obra sempre em construção porque tem, permanentemente, de se adaptar a numerosas contingências e melhorar a sua capacidade de resposta. Porque cada conquista traz consigo novos desafios e não nos podemos deixar encantar pelo que já conseguimos. Vivemos mais, mas nem sempre vivemos melhor. Os anos que ganhámos em esperança de vida nem sempre são anos de saúde, de autonomia e de participação.
Portugal continua a comparar mal com muitos dos seus parceiros europeus no número de anos de vida saudável depois dos 65 anos. Demasiados portugueses envelhecem com várias doenças crónicas e, tantas vezes, em solidão.
Nestes dois dias, aqui se abordou o conceito de healthspan, de acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida. Esta é a questão decisiva das próximas décadas. E obriga-nos a olhar para a saúde numa outra perspetiva.
Obriga-nos, em primeiro lugar, a investir mais na prevenção. Um sistema que só atua quando a doença já se instalou é um sistema caro, tardio e injusto.
A literacia em saúde, a vacinação, os rastreios, a atividade física, a alimentação, o sono e a saúde mental decidem-se muito antes de alguém chegar a um hospital. E decidem-se, em grande parte, nos cuidados de saúde primários, que devem ser o coração do Serviço Nacional de Saúde. Garantir a todos os portugueses um médico e um enfermeiro de família não é uma questão técnica. É uma questão de justiça.
Obriga-nos, em segundo lugar, a compreender que a saúde não se faz apenas nos serviços de saúde. Faz-se na habitação, no emprego, na escola, nos transportes, no ambiente, no espaço público.
Discutiu-se aqui, com razão, que o código postal pode ser tão determinante como a biologia. A esperança de vida ainda varia de forma significativa entre bairros da mesma cidade e entre regiões do mesmo país. Enquanto assim for, não poderemos dizer que a longevidade é uma conquista partilhada. As políticas de saúde têm de ser, cada vez mais, políticas de coesão social e territorial.
Obriga-nos, em terceiro lugar, a integrar cuidados. O doente de hoje é, muitas vezes, uma pessoa com várias doenças, que precisa de continuidade, de coordenação e de proximidade. Precisamos de uma articulação estreita entre a saúde e o apoio social, e entre hospitais e centros de saúde.
Precisamos dela também entre o setor público, o setor social e o setor privado, cada um no seu papel, mas todos ao serviço das pessoas. E precisamos de reconhecer os cuidadores informais, na sua maioria mulheres, que suportam em silêncio uma parte imensa desta responsabilidade.
Obriga-nos, por fim, a acolher a inovação com ambição e com responsabilidade.
A inteligência artificial, os dados de saúde, a telemedicina, a hospitalização domiciliária e a medicina personalizada podem transformar a forma como cuidamos. Podem antecipar diagnósticos, libertar os profissionais para aquilo que só eles sabem fazer e levar os cuidados até casa das pessoas. Mas a tecnologia não é neutra. Sem regras claras, sem transparência e sem proteção de dados, a inovação pode aprofundar desigualdades em vez de as reduzir.
A confiança dos cidadãos é o bem mais precioso de qualquer sistema de saúde. E a tecnologia deve reforçar, e nunca substituir, a relação humana entre o doente e aquele que dele cuida.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Não ignoro as dificuldades que o Serviço Nacional de Saúde atravessa. Os portugueses conhecem-nas bem: as listas de espera, as urgências sob pressão, a falta de médicos de família em várias regiões, o cansaço de profissionais que dão, tantas vezes, muito mais do que lhes é pedido.
Reconhecer estas dificuldades não é enfraquecer o SNS. É identificar os desafios, para os superar e construir um Serviço Nacional de Saúde mais forte e mais resiliente.
E vamos consegui-lo, com aqueles que, todos os dias, mantêm o SNS a funcionar: médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos, assistentes operacionais e administrativos, gestores, investigadores. Com todos os que, diariamente e com o seu esforço, vão tornando realidade o sonho de António Arnaut.
Valorizar as carreiras e fixar profissionais onde fazem mais falta é um investimento essencial. Criar condições para que os mais jovens queiram construir o seu futuro no nosso país é, porventura, o maior investimento que podemos fazer na saúde dos portugueses.
E digo, com a mesma clareza, que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde não se garante apenas gastando menos, mas investindo melhor, com planeamento, avaliação, boa gestão e estabilidade.
A saúde não pode ficar refém de ciclos políticos curtos. As grandes reformas exigem horizonte, e o horizonte exige compromisso entre forças políticas, parceiros sociais e sociedade civil.
O Presidente da República estará sempre disponível para favorecer esse entendimento.
É esse o sentido do pacto para a saúde que lancei no início do meu mandato e para o qual é necessário canalizar todas as energias. Uma democracia forte precisa de um SNS que promova o acesso à saúde a todos e a tempo e horas. Que permita dar aos portugueses «mais anos de vida, mas também mais vida aos anos».
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
O mundo que temos diante de nós é exigente. As alterações climáticas já afetam a nossa saúde. As crises sanitárias recentes evidenciaram de forma clara e dramática os desafios da interdependência. Nenhum país enfrentará sozinho estes desafios. Portugal deve continuar a ser uma voz ativa pela cooperação em saúde e pela defesa de sistemas de saúde universais. Devemos igualmente, em particular nas políticas publicas, ter em conta a salvaguarda de recursos mínimos de autonomia.
Termino como comecei agradecendo. Agradeço à organização deste Fórum, ao seu Conselho Geral, aos oradores e a todos os participantes. Levem daqui não apenas ideias, levem compromissos.
Porque viver mais é uma conquista da ciência. Viver melhor, e criar condições para que todos vivam melhor, é uma escolha da democracia.
Muito obrigado.