01/23/2026 | Press release | Distributed by Public on 01/23/2026 14:00
Senhoras e senhores,
O mundo atravessa um período de incertezas e desafios. Vivemos um tempo marcado por contrastes profundos: avanços científicos e tecnológicos sem precedentes coexistem com a persistência - e, em alguns contextos, o agravamento - da fome, da pobreza extrema, dos conflitos armados, das migrações forçadas e da degradação ambiental.
A fragmentação do tecido social, a erosão da confiança nas instituições e a tentação de respostas unilaterais desafiam a comunidade internacional a reencontrar fundamentos políticos e éticos comuns.
Guerras prolongam-se em diversas partes do globo, com consequências humanitárias catastróficas, como na Palestina, no Sudão, na República Democrática do Congo e também na Ucrânia.
Ao mesmo tempo, as despesas militares aumentaram 9,4%, alcançando a estarrecedora cifra de US$ 2,7 trilhões de dólares.
De 2015 a 2024, os gastos militares aumentaram todos os anos, o que representa um incremento de 37% ao longo da década, atingindo a maior despesa per capita desde 1990.
Assistimos, ainda, ao ressurgimento da xenofobia e da culpabilização do outro pelos males em cada sociedade, gerando cenas terríveis de perseguição a migrantes, inclusive em seus locais de estudo, de trabalho e até mesmo de culto.
Nesse cenário, a voz moral da Santa Sé permanece como referência indispensável, ao recordar que a paz duradoura só pode ser construída sobre a dignidade inviolável de cada pessoa humana, a solidariedade entre os povos e a centralidade do bem comum.
Esses valores mostram-se não somente desejáveis, mas verdadeiramente essenciais para orientar a ação coletiva diante das incertezas do nosso tempo.
O contexto atual reforça o caráter estratégico do aprofundamento do diálogo e da cooperação entre o Brasil e a Santa Sé.
A partir de hoje, 23 de janeiro de 2026, terão início as celebrações do bicentenário de nossas relações diplomáticas.
São duzentos anos de diálogo contínuo, respeito recíproco e colaboração construtiva, ancorados na compreensão profunda do papel que a fé, a dignidade humana e a justiça social desempenharam na vida e na formação de nosso povo.
Tivemos, ainda, a satisfação de receber seis visitas papais ao Brasil, com três diferentes pontífices: João Paulo II, Bento XI e Francisco.
Essa trajetória singular, além de conferir às nossas relações um caráter histórico, aponta uma vocação para o futuro.
Ao celebrarmos esses dois séculos de relações, celebramos também a capacidade que o Brasil e a Santa Sé têm demonstrado de se guiar por vetores comuns, que orientam suas ações no cenário internacional.
Compartilhamos, Brasil e Santa Sé, a convicção de que o desenvolvimento só é autêntico quando coloca a pessoa humana no centro e quando ninguém é deixado para trás.
Da mesma forma, convergimos no compromisso com a redução das desigualdades, reconhecendo que sociedades mais justas e inclusivas são, igualmente, mais pacíficas e resilientes.
Também consideramos o respeito ao direito internacional e o fortalecimento do multilateralismo instrumentos indispensáveis para respostas eficazes aos desafios globais do nosso tempo.
Essas convergências se refletem no Acordo Brasil-Santa Sé, que, assinado em 2008, definiu bases adequadas para o aprofundamento do nosso diálogo e da cooperação, em um quadro de respeito à liberdade religiosa e à laicidade do Estado.
Senhoras e senhores,
As celebrações do bicentenário das relações entre o Brasil e a Santa Sé, que contarão com ampla agenda cultural ao longo de 2026, são possíveis graças à colaboração de apoiadores e instituições aos quais gostaria de fazer breve menção:
à Camerata Antiqua de Curitiba e a todos os apoiadores e patrocinadores que viabilizaram que sua música ecoasse na histórica missa celebrada na Basílica de Santa Maria Maior;
à Stellantis e à Casa Fiat de Cultura, que viabilizarão a exposição inédita de obras do mestre Aleijadinho nos Museus Vaticanos;
à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, aqui representada por sua diretoria; à PUC-Rio, pela criação da identidade visual do Bicentenário; à Arquidiocese do Rio de Janeiro; ao Santuário do Cristo Redentor;
ao Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, assim como ao Museus Vaticanos;
ao Dicastério para as Comunicações e à Sala de Imprensa da Santa Sé;
e, por fim, à Fundação Biblioteca Nacional, ao Ministério da Cultura e ao Instituto Guimarães Rosa do Ministério das Relações Exteriores.
Ao festejarmos o bicentenário de nossas relações, somos convidados não somente a recordar o passado, mas a renovar um projeto comum de futuro. Um futuro no qual a diplomacia seja instrumento de aproximação entre os povos, no qual a ética e a solidariedade orientem as decisões internacionais e no qual a esperança prevaleça sobre a indiferença.
Muito obrigado.