08/06/2026 | Press release | Distributed by Public on 08/06/2026 11:18
A solidariedade existe em várias formas. Na condição humana ganha uma dimensão ética, filosófica e universal muito mais profunda.
É o "outro", o familiar, o vizinho, ou até o desconhecido, que merece a nossa atenção, o nosso cuidado, o nosso tempo.
É uma das facetas mais admiráveis da nossa condição humana. E tem uma particularidade rara: traduz-se num ganho repartido, de quem recebe e de quem oferece. Uma verdadeira partilha.
Num mundo cada vez mais egoísta, onde tantas relações humanas se esgotam em resultados quantitativos, abraçar projetos solidários merece ser enaltecido.
Por isso, as minhas primeiras palavras são para todos e para todas os que tornaram este projeto possível. Em particular, para a Associação de Solidariedade Social, Recreativa e Desportiva da Freguesia de Vila Chã de Sá, para a Junta de Freguesia que ao longo das décadas tem reconhecido o valor da proximidade e cedido espaços e valências à Associação.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Estive a ler o vosso historial. Cinquenta e dois anos de voluntarismo, de abnegação, de sacrifício e de uma vontade permanente de promover o bem-estar de todos.
É uma história que ilustra o que muitos ignoram: que boa parte das estruturas de apoio social e cultural deste país nasceu da boa vontade das pessoas.
De valores como a partilha, transmitidos ao longo de várias gerações.
Da determinação de alguns, que gerou desporto, teatro e música. Vida comunitária onde antes não havia nada.
É verdade que houve as habituais rivalidades, no caso presente, entre os então designados de amarelos e dos vermelhos. Mas rapidamente a divisão se transformou em união. Em estruturas edificadas. Em trabalho permanente ao serviço da comunidade.
Muitas vezes, a substituir a ausência das funções mais básicas do Estado, como aconteceu quando a vossa associação se tornou Instituição Particular de Solidariedade Social, passando a apoiar idosos e crianças.
Desde 1995 que prestam um serviço de valor inestimável. Com a creche, o jardim de infância e, logo no ano seguinte, o ATL e o apoio domiciliário.
Atualmente dão resposta a dezenas de crianças e a uma centena de pessoas através do apoio domiciliário. E hoje cumprem mais um sonho: a inauguração desta Estrutura Residencial para Pessoas Idosas.
Tenho todo o prazer em associar-me à concretização deste sonho. Mas, mais do que associar-me, quero agradecer.
Agradecer o que estão a fazer em benefício de 63 pessoas que, junto com as suas famílias, vão ter, a partir de agora, muito melhores condições de vida. Das 40 crianças e das suas famílias que todos os dias alegrarão este mesmo espaço com as suas brincadeiras e vontade de viver. Dos 100 idosos que receberão apoio domiciliário que partirá daqui.
Faço votos para que encontrem aqui muitos momentos de felicidade e uma rotina tranquila. Longe das inquietações que assombram tantas famílias portuguesas que não conseguem encontrar um lugar digno para quem amam.
E é aqui que preciso de ser franco.
É inaceitável que o Estado se tenha demitido, em tão larga medida, de responder a esta necessidade que leva milhares de famílias ao desespero.
Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos camas por idoso em lares. Temos menos de quatro camas por cada mil pessoas com mais de 65 anos. A média da OCDE é de quarenta e uma camas!
Muitas residências não têm vagas. A população envelhece a cada ano. Os preços sobem. E, para demasiadas famílias, o custo de um lar aproxima-se, ou ultrapassa, o rendimento de todo o agregado.
Esta Estrutura Residencial é um sinal positivo para toda a comunidade.
Mas não podemos esquecer uma verdade que tenho repetido e vou continuar a repetir: não cabe ao setor social substituir-se às responsabilidades do Estado.
Milhares de famílias aguardam, dolorosamente, uma resposta. E a tendência é de agravamento de um problema que todos temos o dever de impedir que se transforme numa tragédia geracional.
Cuidar de quem envelheceu é, para mim, uma das causas que mais me interpelam. Como Presidente da República e como simples cidadão.
Porque há uma coisa que nenhuma sociedade decente pode aceitar: é indesculpável não tratar bem quem nos tratou bem a nós.
Os que aqui vão viver criaram filhos, construíram o país, cuidaram das gerações que se seguiram. Devemos-lhes, no mínimo, a dignidade de um tempo sereno e acompanhado.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A todos os que aqui vão viver, o meu desejo sincero: sejam muito felizes.
Aos cuidadores, que dão o que de mais precioso existe, que é tempo e afeto a quem deles precisa, os meus votos de que partilhem muitos momentos de felicidade.
O que fazem não tem preço, e nem sempre tem o reconhecimento que merecem. Mas têm o reconhecimento do Presidente da República.
A todos, o meu obrigado.