06/29/2026 | Press release | Distributed by Public on 06/29/2026 09:22
As mudanças promovidas pelo segundo governo de Donald Trump nos Estados Unidos e o fortalecimento da China como potência econômica e tecnológica estão transformando o cenário internacional. Esse é o tema central das edições 43 e 44 do Boletim de Economia e Política Internacional (BEPI), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reunidas sob o título Geoeconomia na Encruzilhada: a confluência do governo Trump II e a ascensão econômica da China.
O panorama contemporâneo é marcado pela crescente rivalidade entre Washington e Pequim, que orienta boa parte das transformações na ordem global. As políticas do governo Trump II, baseadas em tarifas elevadas e restrições ao acesso chinês a tecnologias estratégicas, buscam não apenas estimular a reindustrialização americana, mas também conter o avanço de seu principal concorrente. Paralelamente, os EUA têm reduzido seu engajamento em organismos multilaterais, questionando instituições criadas na ordem do pós-guerra por considerá-las incompatíveis com seus interesses.
Em contraste, a China tem ampliado seu papel como defensora das regras do sistema internacional e expandido sua influência global por meio de investimentos em infraestrutura. Esse movimento fortalece sua presença em diversas regiões do mundo, inclusive em áreas tradicionalmente associadas à influência de outras potências e contribuindo para o aumento das tensões geopolíticas. Nesse contexto, ganha força o debate sobre o surgimento de uma nova configuração da ordem internacional, marcada pela redistribuição de poder e pela reavaliação das instituições que sustentaram o sistema global desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Análises e estudos de caso
O primeiro artigo analisa a mudança na política comercial dos Estados Unidos a partir da investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 do Trade Act de 1974. Os autores argumentam que, enquanto as disputas comerciais anteriores eram geralmente motivadas por queixas de setores específicos, a ofensiva recente se sustenta em alegações amplas e pouco precisas.
Essas justificativas vão desde supostas falhas na implementação de políticas de combate à corrupção e ao desmatamento até uma tese de concorrência desleal ao sistema de pagamentos americano atribuída ao Pix. Para os pesquisadores, a iniciativa reflete objetivos de natureza geopolítica, relacionados à rivalidade entre Washington e Pequim e à tentativa de influenciar o posicionamento estratégico brasileiro.
O segundo artigo investiga como os países da América Latina e do Caribe vêm se posicionando diante dessa disputa. O estudo analisa padrões de votação na Assembleia Geral das Nações Unidas e a atuação de dois fóruns regionais: a Cúpula das Américas e o Fórum China-CELAC. Os resultados indicam que a maior presença chinesa está associada à capacidade de Pequim de ocupar espaços deixados pelos Estados Unidos, combinando aportes e financiamento de infraestrutura com uma abordagem mais pragmática e cooperativa. Já Washington tem priorizado temas como segurança e governança democrática, com menor oferta de recursos financeiros diretos.
A estratégia norte-americana para o Indo-Pacífico como parte do esforço de contenção à ascensão chinesa é abordada no terceiro artigo. O texto acompanha a evolução dessa política desde o governo Obama e destaca o fortalecimento de alianças militares e de segurança na região. Os autores observam, contudo, que essa estratégia enfrenta limites: enquanto os Estados Unidos ampliam sua presença militar, a China expande sua influência econômica por meio do comércio e de investimentos, aprofundando uma interdependência que dificulta o isolamento econômico.
Os impactos dessa rivalidade sobre o comércio bilateral e as cadeias globais de valor são o tema do quarto artigo. O estudo mostra que a busca por eficiência econômica vem sendo gradualmente substituída por estratégias voltadas à segurança e à autonomia tecnológica. O desacoplamento entre as duas maiores economias do mundo ocorre de forma seletiva, concentrando-se nos setores de alta tecnologia, enquanto segmentos tradicionais permanecem integrados. Nesse processo, ganham relevância a realocação de cadeias produtivas para países aliados (friendshoring), a triangulação do comércio por terceiros países e a manutenção de vínculos econômicos entre a União Europeia e a China.
Por fim, o quinto artigo discute como o avanço da geoeconomia transforma a ordem econômica internacional. Segundo o autor, a crescente ênfase em segurança nacional e autonomia estratégica enfraquece o multilateralismo tradicional e favorece a formação de blocos econômicos distintos. O estudo apresenta três cenários para essa transformação e aponta como mais provável uma ordem multipolar, na qual grandes potências competem entre si, mas ainda preservam espaços limitados de cooperação.
A segunda parte da série será publicada na edição 44 do BEPI, com foco nos impactos geoeconômicos da expansão chinesa e nas reações de potências globais, como a União Europeia, diante da redistribuição do poder mundial.
Acesse a íntegra do Boletim de Economia e Política Internacional n. 43
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