Presidency of the Portuguese Republic

07/17/2026 | Press release | Distributed by Public on 07/17/2026 12:28

Intervenção nas comemorações dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian

Comecemos pelo essencial: uma palavra de felicitações, de aplauso e de agradecimento à Fundação Calouste Gulbenkian pelos seus 70 anos de vida em Portugal - e pela reabertura do seu Museu. Por muito que fosse necessário encerrá-lo, durante este ano, para lhe prolongar a vida, já sentíamos a sua falta.

Depois, uma constatação: não podemos falar dos últimos 70 anos da vida portuguesa sem mencionar a Fundação Calouste Gulbenkian. Na cultura, nas artes, nos seus serviços de educação, no apoio e incentivo à investigação e à inovação científicas, na filantropia em geral, na medicina, na criação artística e na arquitetura, na criação da primeira rede de leitura pública e de uma geração de leitores gratos e apaixonados, os domínios em que a Fundação Calouste Gulbenkian se estabeleceu ou deixou a memória da sua passagem, foram domínios que registaram melhorias, avanços, inovação, solidez - e beleza.

No país de 1956, a Fundação Calouste Gulbenkian era pura novidade, grandeza, invenção e pioneirismo, trazendo para Portugal o melhor que se viria a fazer em Portugal e que teve essa etapa decisiva, a inauguração deste edifício em 1969.

Setenta anos depois, podemos dizer que o seu modelo de funcionamento e os seus programas de ação inspiraram as nossas políticas públicas e as atitudes e ambições do Estado português.

Mas, para sermos inteiramente justos, setenta anos depois, em 2026, a Fundação Calouste Gulbenkian continua a ser novidade, grandeza, invenção e pioneirismo.

A sua política de bolsas de investigação, os seus programas de música e de exposições, o programa de aquisição de arte contemporânea e o papel notável do Centro de Arte Moderna, o apoio às jovens nações africanas em domínios que vão da medicina ao ensino básico e superior ou ao incremento da leitura e à melhoria das condições de vida, a presença da Fundação em França e no Reino Unido, a recente criação do Instituto Gulbenkian para Estudos Avançados, ou o Prémio Gulbenkian para a Humanidade, são marcos que não podem ser esquecidos.

De certo modo, sem nenhuma espécie de falsa vaidade, são caminhos da afirmação de uma fundação essencialmente portuguesa no mundo de hoje. Um mundo em que desejamos que as suas fronteiras estejam abertas para o conhecimento em geral, a arte, a música, a ciência, a redescoberta das humanidades, o serviço às comunidades humanas, o apoio a idosos ou a projetos inovadores de agrobiologia, distribuição de água e de energia, a reinvenção da cultura de hoje. E nada disso trai, muito pelo contrário, o legado de Calouste Gulbenkian e dos fundadores desta casa.

Aprendemos muito com a Fundação, como já disse, mas a história da Fundação Calouste Gulbenkian não é, no entanto, a história do nosso país, por muito que gostássemos que isso fosse verdade.

Muitas vezes escutei esta expressão, e todos a reconhecemos: a de que a Gulbenkian foi o nosso Ministério da Cultura enquanto não havia Ministério da Cultura, ou o nosso Ministério da Ciência enquanto não havia políticas públicas de ciência ou de desenvolvimento e incremento de centros de investigação científica.

Ou que era a nossa sala de inovação na área da música, da museologia e até da edição, publicando séries de livros, nas áreas da ciência, da literatura ou da história e da filosofia, que só pudemos ler graças ao investimento e à disponibilidade da Fundação Calouste Gulbenkian.

Várias vezes me tenho referido, desde que fui eleito Presidente da República, à responsabilidade social da riqueza. Creio que a Fundação Calouste Gulbenkian pode ser eleita como um exemplo, o exemplo. Um exemplo maior, dados os seus recursos financeiros e humanos. Certamente um exemplo irrepetível. Quaisquer que tenham sido as razões profundas que levaram Calouste Sarkis Gulbenkian a ter pensado na Fundação e imaginado o seu futuro, esse é o espírito que há de ficar.

Referi-o antes como uma espécie de devolução à comunidade de parte do sucesso a que a comunidade está ligada de alguma forma. O caso desta grande instituição é diferente. Tratou-se de uma escolha. A escolha de um país que está grato à Fundação, porque a sua vida melhorou com a Fundação, as suas instituições melhoraram com a Fundação. Os portugueses puderam usufruir de benefícios para lá de imagináveis desde 1956. A gratidão é uma das mais belas palavras dos nossos dicionários e devemos usá-la neste caso. É uma das palavras do meio de que tanto estamos necessitados.

Sei que essa escolha, a escolha do nosso país como sede da Fundação, é um tema de contornos políticos e diplomáticos cuja bibliografia é cada vez mais vasta, tal como a história da própria Fundação Calouste Gulbenkian. Mas hoje interessa-nos exclusivamente o legado que essa escolha tornou possível.

Foi um legado construído com esforço e criatividade pessoal, com as vantagens e vicissitudes da História, e também com sorte, que é um instrumento importante.

Parte desse legado está representado neste auditório, onde já escutámos música e assistimos a conferências; está representado no Museu que agora reabre para nossa felicidade e onde estão reunidas as coleções e impresso o gosto pessoal de Calouste Sarkis Gulbenkian.

Tudo isto é possível graças à dimensão da própria instituição, ao trabalho e visionarismo dos seus fundadores e dos que, com e depois de José de Azeredo Perdigão, mantiveram ou alteraram o rumo desta casa, consolidando o seu espírito, garantindo (espero) a sua longevidade perpétua.

Manter ou alterar, conservar ou inovar. Muitas vezes discutimos esta dualidade, esta aparente oposição de critérios. Mesmo nesse domínio, a Fundação Calouste Gulbenkian tem sido exemplar. Na semana passada, o Professor António Feijó teve uma expressão muito feliz quando lembrava a dimensão da Fundação como um enorme transatlântico a quem não se pode pedir, nem é bom pedir, mudanças bruscas de direção. Esta atitude tem sido um dos segredos da Fundação.

Com o tempo, o mundo entrou na Fundação Calouste Gulbenkian - mas a Fundação estava preparada para o receber, para o alojar, e para conversar com as mudanças do mundo. Esse espírito tem mantido esta casa, que tem sido um albergue para a inovação e para o passado, para novas perspetivas sobre a nossa história, a nossa cultura, as nossas artes e a nossa relação com os outros.

Porque tem uma ideia acerca da dimensão do tempo, acerca da sua duração, acerca do papel da arte, acerca da função do poder, acerca da memória e acerca das instituições sólidas que não mudam por mudar. Não mudam porque é moda - mudam porque já mudaram, e porque o exemplo da sua mudança, quando ocorre, é inspirador para todos nós.

Daqui a 70 anos, lamento muito informar-vos, nenhum de nós estará nesta sala. A sala há de ser diferente. O Museu, que teremos oportunidade de revisitar daqui a pouco, há de ser diferente daquele que o diretor Xavier Salomon imaginou ou há de imaginar para este tempo, embora conserve as suas relíquias de cinco mil anos de história. Algumas das árvores que estão nos jardins da Fundação hão de sobreviver, permitindo a notável transição entre a sua sombra e a luz das coleções criadas por Calouste Sarkis Gulbenkian. Foi aqui que vi o meu primeiro Rembrandt e o meu primeiro Renoir. Foi este museu que permitiu o meu primeiro contacto com a arte islâmica, egípcia ou chinesa.

Daqui a 70 anos, o mundo será melhor se o exemplo da Fundação Calouste Gulbenkian se mantiver e puder ser replicado, seguido e estudado.

É por isso que aguardamos com curiosidade e interesse o estudo sobre os projetos e apoios concedidos pela Fundação durante estas sete décadas. Porque ele poderá ajudar-nos a perceber de que forma a Fundação se espalhou por todos os continentes, por muitos países, por toda a geografia portuguesa, fazendo da nossa vida uma vida muito melhor do que teria sido se a Gulbenkian não existisse.

Daqui a 70 anos, alguém lembrará o momento em que tudo isto foi possível. É essa história que a Fundação está permanentemente a escrever como um legado que não esqueceremos e que temos a felicidade de vivenciar.

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