10/08/2026 | Press release | Distributed by Public on 10/08/2026 10:10
Mineração em mar profundo arrisca destruir mais valor do que cria
08/10/2026 16:00
A promessa de que a mineração do fundo do mar pode abrir uma nova fronteira de matérias-primas críticas enfrenta uma dúvida mais básica: será que o negócio dá dinheiro? Uma análise que submeteu as projeções da própria indústria a 10 mil simulações conclui que, na maioria dos cenários, a resposta é negativa.O estudo "Case Not Proven: The Economics of Deep-Sea Mining", produzido pela Koinon Consulting e promovido por um conjunto de organizações que inclui a Fundação Oceano Azul, analisou os projetos NORI-D e TOML da The Metals Company (TMC), que pretende recolher nódulos polimetálicos na zona Clarion-Clipperton, no Pacífico. Partindo dos dados da empresa, testou riscos como derrapagens de custos e oscilações dos preços dos metais.A TMC aponta para cerca de 23 mil milhões de dólares de valor atual líquido nos dois projetos. Atualizando as receitas e despesas futuras para o seu valor presente com uma taxa de desconto de 8%, a análise obtém um resultado mediano negativo de cinco mil milhões. Em 83% das simulações há destruição de valor e, em 61%, o investimento nunca chega a ser recuperado. "O caso económico da mineração em mar profundo não está provado", resume o relatório. Nos cenários em que é possível calculá-la, a taxa interna de rentabilidade mediana fica nos 4%, contra 27% projetados pela empresa.A conta piora à medida que aumenta a remuneração exigida ao investimento para compensar o risco. Com uma taxa de desconto de 12%, que reduz o valor atribuído hoje às receitas esperadas no futuro, os projetos destroem valor em 96% dos cenários. Com taxas superiores, a proporção ultrapassa os 99% e a derrapagem dos custos de investimento surge como o maior fator individual de risco. "Os retornos são demasiado baixos para os riscos técnicos, operacionais, ambientais, de preço, de procura e de aceitação social envolvidos", afirma Johnny West, diretor da Koinon Consulting e autor do estudo.No entanto, o risco não fica apenas nos investidores. A entrada de grandes quantidades de níquel, cobalto, cobre e manganês extraídos do fundo oceânico poderia pressionar os preços mundiais e reduzir receitas fiscais dos países produtores em terra. Num ano de pico, o modelo aponta para perdas fiscais próximas de 1,9 mil milhões de dólares na mineração terrestre, superiores aos cerca de 1,1 mil milhões que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) receberia.O impacto recairia sobretudo sobre economias em desenvolvimento dependentes destes recursos. As estimativas apontam para perdas anuais de cerca de 460 milhões de dólares para a Indonésia, 270 milhões para a África do Sul, 250 milhões para a República Democrática do Congo e 110 milhões para o Gabão. O relatório contesta assim a ideia de que explorar minerais numa área definida pelo direito internacional como património comum da humanidade produzirá necessariamente um benefício económico líquido para a comunidade internacional.Também os chamados Estados patrocinadores, que assumem responsabilidades jurídicas ao apoiar empresas candidatas a contratos de exploração, arriscam ficar com uma parte pequena da recompensa. Segundo o comunicado das entidades promotoras do estudo, em 74% dos cenários não recebem imposto sobre o rendimento das empresas associado aos projetos, apesar das responsabilidades legais e ambientais assumidas.Estas contas não incluem os potenciais custos dos danos ambientais, nem eventuais impactos nas pescas, nos meios de subsistência e nos ecossistemas marinhos. Ou seja, a perda mediana de cinco mil milhões de dólares resulta apenas da análise económica dos projetos e poderia ser agravada se estes efeitos fossem contabilizados.A discussão surge quando a ISA continua sem concluir o código que deverá regular a exploração comercial dos minerais do fundo marinho. Depois da sessão deste verão, a organização pediu um novo roteiro para resolver as questões ainda em aberto. Portugal tomou, entretanto, uma posição mais restritiva. Desde 2025 vigora uma moratória à prospeção e exploração mineira no espaço marítimo nacional até 1 de janeiro de 2050, e a lei passou também a prever a defesa de uma moratória internacional enquanto o princípio da precaução o justificar.Para os autores, a incerteza ambiental deixa assim de ser o único argumento para travar a corrida ao fundo do oceano. Mesmo aceitando as projeções de produção da indústria e deixando os danos ambientais fora da fatura, o investimento falha o teste económico na larga maioria dos cenários. A promessa de que a mineração do fundo do mar pode abrir uma nova fronteira de matérias-primas críticas enfrenta uma dúvida mais básica: será que o negócio dá dinheiro? Uma análise que submeteu as projeções da própria indústria a 10 mil simulações conclui que, na maioria dos cenários, a resposta é negativa.O estudo "Case Not Proven: The Economics of Deep-Sea Mining", produzido pela Koinon Consulting e promovido por um conjunto de organizações que inclui a Fundação Oceano Azul, analisou os projetos NORI-D e TOML da The Metals Company (TMC), que pretende recolher nódulos polimetálicos na zona Clarion-Clipperton, no Pacífico. Partindo dos dados da empresa, testou riscos como derrapagens de custos e oscilações dos preços dos metais.A TMC aponta para cerca de 23 mil milhões de dólares de valor atual líquido nos dois projetos. Atualizando as receitas e despesas futuras para o seu valor presente com uma taxa de desconto de 8%, a análise obtém um resultado mediano negativo de cinco mil milhões. Em 83% das simulações há destruição de valor e, em 61%, o investimento nunca chega a ser recuperado. "O caso económico da mineração em mar profundo não está provado", resume o relatório. Nos cenários em que é possível calculá-la, a taxa interna de rentabilidade mediana fica nos 4%, contra 27% projetados pela empresa.A conta piora à medida que aumenta a remuneração exigida ao investimento para compensar o risco. Com uma taxa de desconto de 12%, que reduz o valor atribuído hoje às receitas esperadas no futuro, os projetos destroem valor em 96% dos cenários. Com taxas superiores, a proporção ultrapassa os 99% e a derrapagem dos custos de investimento surge como o maior fator individual de risco. "Os retornos são demasiado baixos para os riscos técnicos, operacionais, ambientais, de preço, de procura e de aceitação social envolvidos", afirma Johnny West, diretor da Koinon Consulting e autor do estudo.No entanto, o risco não fica apenas nos investidores. A entrada de grandes quantidades de níquel, cobalto, cobre e manganês extraídos do fundo oceânico poderia pressionar os preços mundiais e reduzir receitas fiscais dos países produtores em terra. Num ano de pico, o modelo aponta para perdas fiscais próximas de 1,9 mil milhões de dólares na mineração terrestre, superiores aos cerca de 1,1 mil milhões que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) receberia.O impacto recairia sobretudo sobre economias em desenvolvimento dependentes destes recursos. As estimativas apontam para perdas anuais de cerca de 460 milhões de dólares para a Indonésia, 270 milhões para a África do Sul, 250 milhões para a República Democrática do Congo e 110 milhões para o Gabão. O relatório contesta assim a ideia de que explorar minerais numa área definida pelo direito internacional como património comum da humanidade produzirá necessariamente um benefício económico líquido para a comunidade internacional.Também os chamados Estados patrocinadores, que assumem responsabilidades jurídicas ao apoiar empresas candidatas a contratos de exploração, arriscam ficar com uma parte pequena da recompensa. Segundo o comunicado das entidades promotoras do estudo, em 74% dos cenários não recebem imposto sobre o rendimento das empresas associado aos projetos, apesar das responsabilidades legais e ambientais assumidas.Estas contas não incluem os potenciais custos dos danos ambientais, nem eventuais impactos nas pescas, nos meios de subsistência e nos ecossistemas marinhos. Ou seja, a perda mediana de cinco mil milhões de dólares resulta apenas da análise económica dos projetos e poderia ser agravada se estes efeitos fossem contabilizados.A discussão surge quando a ISA continua sem concluir o código que deverá regular a exploração comercial dos minerais do fundo marinho. Depois da sessão deste verão, a organização pediu um novo roteiro para resolver as questões ainda em aberto. Portugal tomou, entretanto, uma posição mais restritiva. Desde 2025 vigora uma moratória à prospeção e exploração mineira no espaço marítimo nacional até 1 de janeiro de 2050, e a lei passou também a prever a defesa de uma moratória internacional enquanto o princípio da precaução o justificar.Para os autores, a incerteza ambiental deixa assim de ser o único argumento para travar a corrida ao fundo do oceano. Mesmo aceitando as projeções de produção da indústria e deixando os danos ambientais fora da fatura, o investimento falha o teste económico na larga maioria dos cenários.