PCdoB - Partido Comunista do Brasil

08/29/2026 | News release | Distributed by Public on 08/29/2026 14:44

Festa do UZ-Friedenstage reúne comunistas e revive memória da luta contra o nazismo

No antigo edifício do jornal Neues Deutschland ocoore a festa do Unsere Zeit, encontro de comunistas em Berlim. Foto: Tiago Alves
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A festa do jornal UZ-Friedenstage 2026 (Dias de Paz da Unsere Zeit), em Berlim, reúne comunistas, sindicalistas, movimentos sociais, artistas e delegações internacionais em torno da paz, da solidariedade e da memória histórica. Entre os convidados estrangeiros estão representantes do PCdoB, a secretária de Relações Internacionais Ana Prestes e Tiago Alves, do Comitê de Juventude do PCdoB-MG, que participam das atividades e ajudam a aproximar experiências de luta política de diferentes países.

É nesse ambiente que a história deixa de ser apenas lembrança e volta a se apresentar como disputa política. O encontro acontece na Franz-Mehring-Platz, a poucos metros da Ostbahnhof, na parte da cidade que pertenceu à Alemanha Oriental. No alto do edifício onde ocorre o festival ainda se lê Neues Deutschland, o nome de um jornal de esquerda, marca de um passado que permanece inscrito na paisagem.

Como dizem nossos anfitriões, Berlim está em obras. A frase é literal para quem percorre a cidade entre guindastes e tapumes, mas também combina com uma capital em transformação. Trens partem para todos os cantos, grafites ocupam ruas, fachadas e muros e clubes atravessam a madrugada. Gente de diferentes países divide vagões, praças, bares e calçadas.

Essa vitalidade convive com contradições. A especulação imobiliária transforma bairros. Pessoas vivendo nas ruas fazem parte da paisagem cotidiana e o consumo de drogas aparece de forma aberta em algumas áreas. A Berlim conhecida pela liberdade e pela cultura alternativa enfrenta também os problemas sociais de uma grande metrópole.

Mas, para quem chega à cidade vindo de um país como o Brasil e participa de uma festa comunista internacional, há outra Berlim a ser percorrida. Caminhar pela capital alemã é atravessar diferentes camadas da história do século XX - e reencontrar, em ruas, monumentos e edifícios, as marcas das disputas que moldaram a Europa.

Onde o passado comunista continua presente

Poucas cidades carregam de maneira tão visível as marcas das duas guerras mundiais, do nazismo, de quatro décadas de divisão e da reunificação alemã. A capital preserva monumentos e edifícios que ajudam a contar também a história do movimento comunista alemão.

Uma dessas histórias está próxima ao nosso hotel, poucos metros da Ostbahnhof. Na Franz-Mehring-Platz, conjuntos habitacionais e construções preservam características do urbanismo da antiga RDA.

O complexo do edifício onde acontece o UZ-Friedenstage reuniu redação, editora e gráfica do jornal que foi órgão central do SED, partido que governou a RDA. Mais de três décadas depois da reunificação, o prédio continua vivo. Conhecido como FMP1, abriga veículos de comunicação, editoras, organizações sociais, iniciativas de formação política e projetos culturais. O próprio neues deutschland, hoje publicado por uma cooperativa e sem vínculo partidário, mantém sua redação ali.

É nesse endereço carregado de história que acontece o UZ-Friedenstage 2026.

De Unsere Zeit ao UZ-Friedenstage

O UZ que dá nome ao encontro é outro jornal. Unsere Zeit, Nosso Tempo, nasceu em 1969 como publicação do Partido Comunista Alemão, o DKP, constituído no ano anterior na Alemanha Ocidental. Atravessou a Guerra Fria, o desaparecimento da RDA e a reunificação e continua sendo o jornal do DKP.

Foi em torno do Unsere Zeit que surgiu, em 1974, o UZ-Pressefest, reunindo comunistas, sindicalistas, movimentos sociais, artistas e delegações internacionais. Realizada durante muitos anos principalmente no oeste da Alemanha, a festa chegou pela primeira vez a Berlim em 2022.

Em 2024, diante das dificuldades para realizar uma nova edição no formato tradicional, nasceram os UZ-Friedenstage. Segundo os organizadores, mais de 3.500 pessoas participaram daquela primeira edição. Em 2026, o encontro voltou à capital alemã.

O lugar carrega um simbolismo particular. O jornal dos comunistas que se reorganizaram na Alemanha Ocidental realiza sua festa no antigo complexo de imprensa do partido que governou a Alemanha Oriental. No mesmo endereço, trajetórias distintas da história comunista alemã voltam a se encontrar.

A presença dos convidados do PCdoB acrescenta outra dimensão ao encontro: a possibilidade de colocar em diálogo a experiência histórica da esquerda alemã com a trajetória do movimento comunista brasileiro e com os desafios contemporâneos da luta pela paz e contra a extrema direita.

Uma história que começa com Marx, Engels, Rosa e Liebknecht

Essa história, entretanto, começa muito antes da divisão do país.

A Alemanha é um dos berços do movimento operário e do pensamento socialista moderno. Karl Marx nasceu em Trier, em 1818, e Friedrich Engels em Barmen, hoje parte de Wuppertal, em 1820. Suas obras e sua atuação política exerceram influência decisiva sobre o movimento operário internacional e sobre as organizações socialistas que se desenvolveram na Alemanha ao longo do século XIX.

Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht estiveram entre os protagonistas da oposição à Primeira Guerra Mundial e da Revolução Alemã iniciada em 1918. No final daquele ano, participaram da fundação do Partido Comunista da Alemanha, o KPD, formado a partir da Liga Spartakus e de outros setores revolucionários.

Poucas semanas depois, em janeiro de 1919, Rosa e Liebknecht foram assassinados em Berlim por forças ligadas à repressão do processo revolucionário.

Nas décadas seguintes, o KPD tornou-se uma das principais forças do movimento operário alemão. Com a chegada de Hitler ao poder, em 1933, os comunistas estiveram entre os primeiros alvos da repressão nazista.

O partido foi lançado à clandestinidade. Dirigentes e militantes foram presos, assassinados, enviados aos campos de concentração ou obrigados ao exílio. Comunistas alemães participaram da resistência ao nazismo dentro e fora do país.

A derrota do nazismo e os caminhos diferentes do pós-guerra

A derrota do nazismo em 1945 permitiu a reorganização do KPD, mas a divisão da Alemanha produziu caminhos diferentes.

Na zona de influência soviética, KPD e SPD se unificaram em 1946 para formar o SED. Com a criação da República Democrática Alemã, em 1949, o SED tornou-se a principal força dirigente do novo Estado socialista.

Na Alemanha Ocidental, o KPD continuou atuando na República Federal até ser proibido pelo Tribunal Constitucional Federal em 1956. Doze anos depois, em 1968, foi constituído o DKP.

O novo partido reuniu antigos militantes do KPD e novas gerações de comunistas, construiu presença no movimento sindical e nas mobilizações pela paz e contra o rearmamento e estabeleceu relações com a RDA e com partidos comunistas de diferentes partes do mundo. No ano seguinte surgiu o Unsere Zeit.

Os memoriais soviéticos e a disputa pela memória de 1945

Berlim guarda também a memória dos soldados soviéticos mortos na batalha pela cidade. Três grandes memoriais permanecem no Tiergarten, no Treptower Park e na Schönholzer Heide.

São monumentos e cemitérios militares dedicados aos soldados do Exército Vermelho mortos nos combates que levaram à tomada da capital alemã e à derrota do regime nazista. Mais de 22 mil soldados soviéticos morreram na batalha por Berlim.

O memorial do Tiergarten foi inaugurado em novembro de 1945, próximo ao Portão de Brandemburgo e ao Reichstag. Mais de dois mil soldados soviéticos estão sepultados no local. Sua localização tem enorme significado. O monumento foi erguido no centro político da capital do Reich derrotado, numa área que integrava os planos monumentais de Adolf Hitler para Berlim.

Ainda mais monumental é o conjunto do Treptower Park, inaugurado em 8 de maio de 1949. Ocupando aproximadamente nove hectares, o memorial é também um grande cemitério militar soviético.

Ao fundo ergue-se sua imagem mais conhecida: um soldado do Exército Vermelho segura uma criança alemã nos braços e empunha uma espada sobre uma suástica destruída.

Os monumentos sobreviveram ao desaparecimento da RDA e da própria União Soviética. A nova Alemanha assumiu compromissos com sua preservação. Mais de oito décadas depois do fim da guerra, permanecem como testemunhos materiais do papel decisivo desempenhado pela União Soviética na derrota do nazismo - e de uma memória histórica que continua em disputa.

Ana Maria Prestes: memória contra o avanço da extrema direita

Ao visitar o Treptower Park, Ana Maria Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, destacou a importância da preservação desses memoriais para manter viva a memória do papel desempenhado pela União Soviética e pelo Exército soviético na vitória de 1945.

A observação ganha dimensão particular no momento atual, marcado pelo crescimento de forças de extrema direita em diferentes países europeus e pela retomada do debate sobre guerra, rearmamento e segurança no continente.

Para um olhar brasileiro sobre uma Europa que novamente convive com a guerra, o rearmamento e o avanço de forças de extrema direita, percorrer esses lugares e acompanhar um encontro como o UZ-Friedenstage aproxima passado e presente.

Uma memória que permanece viva

Como dizem nossos anfitriões, Berlim está em obras. Mas sua história não está apenas nos edifícios que permanecem ou na cidade que se transforma.

Está também na memória das pessoas, nas organizações que atravessaram gerações, nos monumentos, nos nomes de Marx e Engels, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, na lembrança dos soldados soviéticos que tombaram na derrota do nazismo e em um jornal comunista que continua chegando semanalmente aos seus leitores.

Está, ainda, na festa do UZ-Friedenstage, onde diferentes gerações e organizações voltam a se encontrar para discutir o presente e imaginar o futuro.

Em Berlim, passado e presente convivem nas ruas e na memória de quem insiste em não esquecer. E talvez seja justamente essa memória, permanentemente disputada, que ajude a construir o que a cidade ainda poderá ser.

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