09/05/2026 | Press release | Archived content
Apropriação de terras, pressões sobre comunidades amazônicas, desmatamento e conflitos em torno dos recursos naturais: o trabalho jornalístico é essencial hoje na Amazônia para dar visibilidade a realidades cujas repercussões vão muito além do território local. No entanto, os profissionais da informação estão sob pressão permanente. Por ocasião do Dia da Amazônia, neste 5 de setembro, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) destaca o papel desses jornalistas na defesa do direito à informação, na proteção dos territórios e na cobertura de questões que afetam diretamente as comunidades da região.
Em uma região marcada por conflitos socioambientais, desigualdades, pressões econômicas e políticas, além das ameaças enfrentadas por quem produz informação - que chegaram ao extremo do assassinato, em 2022, de Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira -, fortalecer as condições para que jornalistas, e em particular mulheres jornalistas, possam investigar e contar essas realidades também contribui para fortalecer o direito à informação.
Foi nesse contexto que, durante dois anos, a RSF apoiou o desenvolvimento profissional e o trabalho investigativo de sete mulheres jornalistas da Amazônia brasileira, por meio de um programa de mentoria encerrado em agosto de 2026.
"O jornalismo ambiental desempenha um papel essencial para dar visibilidade aos conflitos que afetam a Amazônia, documentar as pressões exercidas sobre os territórios e fazer com que as vozes das comunidades envolvidas sejam ouvidas. Em uma região onde jornalistas - e, em particular, mulheres jornalistas - enfrentam inúmeros obstáculos para produzir e difundir informação, fortalecer o jornalismo local também contribui para proteger os territórios e garantir o direito à informação das populações. Ao apoiar mulheres jornalistas que vivenciam de perto essas realidades, a RSF buscou promover um jornalismo independente, pluralista e comprometido com a cobertura dos desafios socioambientais enfrentados pela região, que hoje têm repercussões internacionais.
Entre as investigações realizadas com o apoio da RSF estão diversas reportagens que dão visibilidade a diferentes formas de resistência e mobilização em defesa dos territórios. Em uma investigação publicada pela Amazônia Real, a jornalista Soraia Joffely abordou a luta dos moradores ribeirinhos da comunidade de Santo Antônio, no estado do Amazonas, em conflito pelo acesso à terra com uma família instalada na região há cerca de dez anos.
Também para a Amazônia Real, a jornalista Monalisa Coelho investigou as relações entre as comunidades quilombolas do município de Alcântara, no estado do Maranhão, e a base de lançamento de foguetes do Estado brasileiro. Sua investigação mostra como, há mais de 40 anos, as famílias enfrentam restrições de acesso às suas terras e ao mar, que afetam a pesca e seus modos de vida tradicionais.
Na Terra Indígena Yanomami, a jornalista Samantha Rufino documentou uma mudança histórica na direção da principal organização representativa dos povos Yanomami e Ye'kwana. Publicada pela InfoAmazonia, sua investigação aborda a eleição, pela primeira vez em mais de 20 anos, de três mulheres para a direção da associação Yanomami, e acompanha sua atuação diante de ameaças como garimpo ilegal e atividades de mineração.
A jornalista Maíra Soares dedicou uma investigação, publicada pela Amazônia Real, às quebradeiras de coco babaçu da região da Baixada Maranhense, no estado do Maranhão, e à luta dessas mulheres para preservar seus territórios. Outras três investigações ainda estão em andamento e serão publicadas até o final de 2026.
Já a reportagem da jornalista Tainá Rionegro publicada na Gama Revista refaz a trajetória de Raimunda, uma ribeirinha que migrou na década de 70 do interior do Amazonas para Manaus, revelando como a exploração industrical da região transformou territórios, relações de trabalho e modos de vida.
O Programa de Mentoria para Mulheres Jornalistas da Amazônia Brasileira recebeu 98 candidaturas e selecionou sete jovens jornalistas de diferentes estados, territórios e contextos da Amazônia brasileira. Durante dois anos, as participantes receberam mentoria e acompanhamento individual de jornalistas experientes.
Elas também participaram de encontros coletivos e de formações sobre assédio judicial e processos judiciais abusivos (SLAPP), segurança física e viabilidade econômica do jornalismo, além de receberem apoio para desenvolver e publicar produções jornalísticas originais.
A iniciativa nasceu da constatação do papel central desempenhado pelos jornalistas locais na produção de informações sobre a Amazônia, apesar de trabalharem em contextos marcados pela precariedade das condições de trabalho, pelo isolamento, pelas pressões econômicas e políticas, pela desinformação e por estratégias de intimidação.
O programa buscou, assim, fortalecer não apenas as trajetórias profissionais individuais, mas também uma rede de mulheres capazes de produzir, a partir da própria região, um jornalismo independente e a serviço do interesse público.