04/29/2026 | Press release | Distributed by Public on 04/29/2026 12:02
Minhas primeiras palavras são de agradecimento ao Senhor Vice-Presidente da República por presidir a cerimônia de hoje.
Felicito as formandas e os formandos pela conclusão dessa importante etapa inicial de sua carreira, motivo - estou certo - de grande orgulho para as suas famílias, às quais estendo minhas felicitações.
Felicito igualmente as formandas e os formandos de Angola, Cabo Verde, Chile, Filipinas, Guiné-Bissau, Japão, Panamá, Paraguai e São Tomé e Príncipe, que levam daqui a mensagem de amizade do governo e do povo do Brasil.
As turbulências globais recentes fazem do evento de hoje uma boa ocasião para refletirmos sobre o significado do Dia do Diplomata, que marca o nascimento de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco.
Fazemos questão de celebrar a trajetória de um negociador - quando tantos enaltecem a confrontação - porque o Barão do Rio Branco mostrou que a firmeza diplomática é crucial em épocas seduzidas pelas promessas da força bruta.
O tempo em que viveu testemunhou o gradual (e inexorável) colapso das regras de convivência internacional forjadas no século XIX: dois anos depois de sua morte deflagrou-se, como se sabe, a Primeira Guerra Mundial.
Em qualquer situação que atuasse - à sombra das normas ou perante a arrogância dos fortes - o Barão do Rio Branco defendeu intransigentemente a grandeza nacional brasileira.
Vislumbrou um Brasil independente e sem a ilusão dos alinhamentos automáticos, atento à dissuasão militar, seguro em seu entorno estratégico e com voz na política mundial.
Ao fechar o traçado do mapa brasileiro na América do Sul, ensinou que o diálogo e a negociação constituem o melhor caminho para a construção da segurança duradoura.
Mas ensinou também, pela firmeza com que lidou com prepotências e pretensões descabidas, que o limite do diálogo é o interesse nacional - e que a soberania brasileira não se barganha.
Cabe reiterar as suas palavras, quando disse que o Brasil não entende - e cito - "de amizade incondicional, especialmente para com os fortes".
Cabe mesmo acrescentar outras, quando julgou pretensões de intervenção externa na América do Sul - e novamente cito as suas palavras - como um "grande erro".
É por isso - caras formandas e caros formandos - que logo no começo deste discurso recordo o Barão do Rio Branco: para destacar a atualidade da sua lição nacionalista de que a diplomacia não é o acordo a qualquer preço.
Senhoras e senhores,
Encontramo-nos diante de um mundo que - mais uma vez - assiste ao colapso da ordem.
Agora, o que naufraga à vista de todos é o ordenamento construído após a Segunda Guerra Mundial, que - com todas as suas contradições e insuficiências - forneceu um marco normativo para a convivência internacional.
Uma arquitetura centrada na Carta das Nações Unidas procurou - nem sempre com êxito - submeter a força militar às regras do processo multilateral.
O mesmo ocorreu em outras áreas, como o comércio internacional, em que a Organização Mundial do Comércio procurou atenuar impulsos de coerção econômica.
A falência da ordem decorre não apenas das resistências a reformas - que a poderiam regenerar -, mas também da própria tentação montante do unilateralismo.
Não faltam ilusões de que a força bruta é preferível à diplomacia como método para a solução das controvérsias.
Rejeita-se o multilateralismo como procedimento em que as vontades nacionais são moduladas como interesses comuns.
Em vez da legitimidade dos interesses, tem-se a arrogância das vontades.
Em vez da composição das diferenças, tem-se a imposição das uniformidades.
Em vez dos limites garantidos pela ordem, levantam-se - com a desordem - as ambições desmedidas.
Uma delas é a das esferas de influência, pelas quais algumas vontades pretendem se expandir em detrimento da independência política e da integridade territorial de outros países.
Em nossa região, conhecemos bem essa história e suas consequências funestas.
A América Latina registra um triste inventário de ingerências estrangeiras.
Nos tempos da chamada "diplomacia da canhoneiras" - que ganhou ultimamente um epílogo anacrônico - o intervencionismo levou à imposição de bloqueios navais e mesmo de protetorados perto de nosso território.
As ingerências conduziram também à instalação de regimes ditatoriais e à violação sistemática de direitos humanos em nossos países.
Uma das milhares de vítimas dessa lógica perversa - que termina fatalmente nos porões da tortura - foi Esmeraldina Carvalho Cunha, que dá nome à Turma que se forma hoje.
É essencial manter viva a memória das vítimas do autoritarismo ao contemplarmos as possíveis repercussões que a desordem mundial pode ter para o Brasil.
Vemos com plena nitidez o grande desafio desse novo contexto.
O colapso da ordem coloca o nosso país diante de uma escolha fundamental: entre subordinação e soberania.
Sabemos - Senhor Vice-Presidente da República - o caminho a seguir.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém.
O povo brasileiro manda em sua própria casa.
Não somos nem queremos ser província de nenhuma metrópole.
Aprendemos, em Euclides da Cunha, como a barbárie pode perpassar civilizações que se pretendem superiores.
O Brasil tem tamanho e consciência para ser o seu próprio centro de referência, afirmar sua própria civilização e conduzir o seu próprio destino a bem de seu próprio povo.
Recordamos hoje a fibra de Esmeraldina Carvalho Cunha porque foi a coragem de gente como ela que fez o Brasil rejeitar o autoritarismo aqui dentro e o apequenamento lá fora.
Construímos um sólido regime democrático, garantido pela Constituição de 1988 - aprovada, Senhor Vice-Presidente da República, com o seu voto.
Com isso, soubemos assegurar democraticamente a autodeterminação de nosso povo.
E a ordem democrática e constitucional de um povo dono de seu destino não será subvertida nem por saudosistas do arbítrio, nem por amantes da intervenção estrangeira.
A Constituição rechaça a subordinação externa.
Acolhendo nossa tradição de não alinhamento, determina - em seu Art. 4º - que as relações exteriores do Brasil se regem pelo princípio da independência nacional.
Senhoras e senhores,
A política externa do governo do Presidente Lula sinalizou, desde 2003, o forte compromisso do Brasil com a atualização dos mecanismos de governança global: no comércio, no meio ambiente, na paz e segurança e em tantas outras áreas.
Advertimos muitas vezes, ao longo dos anos, sobre as fissuras da ordem, que agora se abrem em precipícios humanitários e também econômicos.
Mais do que nunca, é preciso reinventar a governança global, reconhecendo, desde logo, as aspirações de potências do Sul Global, inclusive em termos de segurança.
Sem isso, não haverá ordem equilibrada e legítima.
Nenhum dos grandes problemas da atualidade será resolvido sem que seja ouvida a voz do BRICS, do G20, do G77 - sem que seja ouvido o Brasil.
Nesses últimos anos, ocupamos a presidência de três dos mais importantes agrupamentos internacionais.
À frente do G20, adotamos um "Chamado à Ação" para a reforma da governança global, pleiteando um Conselho de Segurança das Nações Unidas adequado às realidades do século XXI.
Colocamos a redução das desigualdades no centro da agenda do G20, atacando assim uma das causas subjacentes da ruptura do tecido social em todo o mundo - e, por conseguinte, da ascensão dos extremismos.
Lançamos a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, com o apoio de mais de 160 países.
Na presidência do BRICS, propusemos iniciativas concretas de redesenho da ordem internacional.
Priorizamos temas que vinham sendo objeto do descaso da comunidade internacional, como a cooperação em saúde global e a governança da Inteligência Artificial.
Na COP30, em Belém, fizemos frente à encruzilhada entre o negacionismo e a sobrevivência da espécie.
Demonstramos a liderança brasileira em temas de energia limpa, combate à desertificação e bioeconomia, reafirmando o papel do Brasil como ponte entre as necessidades do Sul Global e as metas de descarbonização.
Com o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, procuramos criar incentivos econômicos reais para manter a floresta em pé.
Uma multipolaridade livre de esferas de influência exigirá forte coordenação com o nosso entorno regional.
Isso significa, desde logo, atenção prioritária à América do Sul, em que temos trabalhado estreitamente com vários parceiros.
Revitalizamos a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
No Mercosul, assinamos acordos extrarregionais com Singapura, com o EFTA e com a União Europeia, todos significativos para a construção multipolar.
No âmbito latino-americano mais amplo, temos participado ativamente da CELAC ao mesmo tempo em que nos aproximamos aos nossos vizinhos do Caribe.
Compreendemos que o nosso entorno regional também abrange, a leste, o Atlântico Sul e - em um círculo mais amplo - a costa ocidental da África e todo esse continente.
Por isso realizamos no Rio de Janeiro, há pouco, a reunião da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, na qual nos coordenamos para evitar a aproximação de rivalidades geopolíticas estranhas ao nosso mar comum.
Mais além de nosso entorno, temos explorado nossa natural projeção para outros continentes e hemisférios.
A vocação universalista da diplomacia brasileira nos dá a capacidade de estar presente em todos os quadrantes do globo, de modo a diversificar a base de nossas relações.
Essa estratégia de diversificação nos orienta desde o primeiro governo do Presidente Lula e prolonga nossa tradição de não-alinhamento.
É ela que nos tem protegido, como um seguro, de fortes oscilações político-econômicas globais.
O mundo atual tem evidenciado que nem mesmo as alianças militares - algumas delas de longa data - representam uma garantia inviolável para a segurança dos seus membros.
Diversificar exige criatividade e visão de futuro.
Reforçamos as parcerias com a China, nosso maior parceiro comercial, e com a Índia, na visita do Presidente Lula a Nova Délhi, em fevereiro.
Ampliamos significativamente nossa aproximação com a ASEAN, epicentro do crescimento mundial, com visitas presidenciais ao Vietnã, à Indonésia e à Malásia.
Com as visitas presidenciais a Coreia do Sul e Japão, ampliamos parcerias tradicionais em indústria e tecnologia.
Estamos atentos a novos mercados de grande potencial na Ásia Central e na África.
Continuaremos a avaliar as oportunidades para o Brasil em meio à crise, atuando em todas as frentes pela conformação de uma multipolaridade com o sustentáculo do multilateralismo.
Caros colegas,
Senhoras e senhores,
Esse panorama mostra como estamos enfrentando uma realidade internacional em mudança drástica e violenta.
Se a era da globalização pretendeu relativizar a geografia e acabar com a história, um ciclo de fragmentação volta a colocar a geopolítica em primeiro plano.
Voltamos a estar mais perto do mundo - também ele multipolar - em que viveu o Barão do Rio Branco.
Nesse contexto, não podemos descuidar da atualização dos fundamentos de nossa reflexão sobre o quadro mundial.
Um exemplo de medida recente nesse sentido é a criação de uma disciplina permanente de geopolítica a partir da próxima turma do Instituto Rio Branco.
Queremos dar ao Instituto - e a todo o Ministério - um perfil cada vez mais justo, diverso e inclusivo.
Assegurar que o Itamaraty reflita - em sua composição e atuação - a pluralidade da sociedade brasileira é uma resposta inadiável da nossa diplomacia perante a escalada mundial de xenofobia, misoginia e racismo.
Só uma diplomacia formada e inspirada pela pluralidade poderá salvaguardar - no século XXI - o compromisso exemplar do Barão do Rio Branco com a grandeza do Brasil.
Sigam - caras formandas e caros formandos - o caminho da defesa firme e resoluta do interesse nacional e estarão sempre lutando a boa luta de nosso patrono, o Barão do Rio Branco
Muito obrigado.